1º de maio do GERA

Balada indomável de Maio

Já não somos trabalhadores em luta.
Disseram-nos que, uma vez por ano, éramos trabalhadores em festa.
Domesticaram o nosso direito à luta.
Legislaram o nosso direito à greve.
Domaram-nos.
Já nem podemos sair à rua espontaneamente.
Tudo deve ser administrativamente inscrito, registado, regulado, confirmado e autorizado pelos poderes.
Serviram-nos o eufemismo cruel da palavra "comunicação" e comemos-lo.
Mas, depois de Maio, é sempre Maio.
Continuamos as celebrações anuais como se espreme o pus de uma ferida crónica.
Titubeamos e tropeçamos com horror nessa ideia de que se possa ou até se deva celebrar o trabalho.
Mas, com ou sem trabalho, inscrito, ou não, em códigos na lista dos ofícios registados pelas instituições do Estado, somos apenas operária(o)s da Terra.
Somos a(o)s profissionais especializada(os) e confinada(o)s às lutas fragmentadas num tipo de corporação laboral que diminui a validade das lutas solidárias.
Somos operária(o)s do nada e do tudo, pouco importa para quem não se conforma ao engodo do "emprego".
Fragmentada(o)s só defendemos aquela coisita que é só nossa!
Somos trolhas subservientes de um mundo, onde os Estados nos ensinaram a trabalhar para consolidar os privilégios de uma minoria.
Somos só e apenas esses corpos cuidadosa e meticulosamente geridos pelo Estado.
Mas, depois de Maio, é sempre Maio.
Se d'ALHURES - Paris, Rojava, Palestina, Chiapas, Oaxaca - nos dizem e sabemos que "Nada acabou, tudo começa".
Então d'AQUI resta-nos um dever de resistência e dissidência.
Cauterizar as chagas que nos ensurdecem.
Romper as correntes que nos empecem.
Queimar os dispositivos que nos emparvecem.
Sair do sofá cada vez que nos emudecem.
Greves selvagens, greves de zelo, sabotagens e muito mais, porque: Nada acabou, tudo começa e depois de Maio é sempre Maio.

Porto, 2018
(Grupo Erva Rebelde Anarquista)

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