Curdistão // Jineoloji e a luta das mulheres curdas

Nota: Esta é uma versão revista de um artigo originalmente publicado a 28 de Fevereiro de 2017.

O que é a Jineoloji
Jineoloji é uma nova perspectiva científica desenvolvida pelas mulheres curdas desde 2011, centrada na sua realidade social via uma perspectiva feminina que propõe uma metodologia contrária à da visão dominante e masculina. Querem combater a visão eurocêntrica e racista que, através de abordagens científicas de género e classe, têm abordado as mulheres como objecto de estudo, perpetuando as estruturas de poder social. Procuram também construir alternativas aos métodos de produção de conhecimento assentes na mentalidade patriarcal das ciências sociais, que funcionam como ferramenta hegemónica do Estado no monopólio da vida humana e da perpetuação da modernidade capitalista.

Partindo da premissa de Öcalan – o líder intelectual do movimento de libertação curdo – “A mulher é a nação colonizada da sociedade-histórica que chegou à sua pior posição dentro do Estado-nação (…) A escravatura da mulher é a área social mais acentuada e disfarçada, onde se efectuam todos os tipos de escravatura, opressão e colonização.” (Öcalan, Confederalismo Democrático, p. 17). A Jineoloji tem como objectivo a exposição de milhares de anos de dissimulação da existência das mulheres, da sua identidade, histórias e emoções, assim como da sua realidade intelectual em contexto da exploração e escravidão mantida pelo capitalismo, a modernidade e os discursos do Estado.

Pretende tornar estas histórias visíveis ao olhar para a filosofia, ciência, religião, mitologia e moralidade, entre outros campos, de forma a redefinir a ciência através das significações das mulheres e reescrever a ‘história’ da humanidade a partir de uma nova perspectiva de referência que não negligencia o papel da mulher na construção da sociedade e da vida comunal. É por isso que as mulheres curdas sublinham a origem comum das palavras, Jîn (mulher) e Jîyan (vida); Jineoloji não é apenas uma busca pela verdade das mulheres mas também pela vida.

Por outro lado, Jineoloji deve ser interpretada também como uma parte da luta de libertação curda, a sua contínua busca intelectual, ideológica-política, autodefesa e mobilização, desafiando a colonização da sociedade.

História do movimento das mulheres
A luta de décadas do movimento curdo colocou a libertação da mulher no seu epicentro desde os anos 90, com o lema “Libertação das mulheres é a libertação da sociedade”, fazendo ecoar uma transformação interna na luta organizada do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) e de outras organizações. Desde 1987 em diante, as mulheres começaram as suas próprias organizações autónomas dentro de várias estruturas:

1993 – Formação do exército das mulheres.
1996 – Criação de teoria e prática para a emancipação do sistema patriarcal.
1998 em diante – Ideologia de libertação da mulher.
1999 – Formação de um partido de mulheres.
2000 – Construção de um sistema social enquadrado no paradigma democrático, ecológico e de igualdade de género.
Este último permitiu-lhes participar de igual forma aos homens na política e nas organizações sociais e militares da luta de libertação. Estas organizações autónomas também desafiaram a dicotomia de género que o nacionalismo criou, ao definirem o Estado e o exército como instituições masculinas que têm a função de proteger, deixando as mulheres como protegidas.

A participação das mulheres na luta anticolonial ofereceu uma forma de desafiar a definição colonial da mulher enquanto oprimida e clarificou que as mulheres não estão dispostas a esperar até a libertação nacional e socialista para tratar da sua própria libertação. Até a data, os partidos e organizações viam a libertação feminina como integrada numa luta maior contra o capital. Com a criação dos seus próprios espaços, as mulheres também confrontam a dominação masculina, patriarcal e chauvinista na arena sociopolítica, que ofuscou as experiências das mulheres, forçando-as a assumir uma atitude masculina de forma a ter uma voz na sociedade.

A Jineoloji encontra o seu significado na sociologia da liberdade – a libertação das mulheres, homens e da sociedade. Como uma mulher afirma “Esta é a tarefa de todos os movimentos, indivíduos e mulheres anti-colonialistas, anti-capitalistas e anti-poder. Referimo-nos a estas ciências sociais alternativas como sociologia da liberdade.” Aquelas e aqueles que não conseguem pensar por si próprias/os, que não conseguem pensar segundo as suas próprias perspectivas derivadas das suas experiências pessoais, não se podem governar e, consequentemente, não podem ser livres. Esto é o ponto de partida da Jineoloji. No entanto é também um passo para alterar paradigmas socialistas que desejam liberdade, uma vida igual e justa mas que no entanto não foram capazes de resolver as suas contradições internas, deixando de lado a opressão das mulheres.

Apesar de vários estudos feministas já terem formulado contribuições e teorias substanciais a denunciar o sexismo societal por diferentes perspectivas, contribuições essas que também alimentam e fortalecem a Jineoloji, esta não se abstém de levantar uma crítica ao feminismo pela razão de ter sido incapaz de ultrapassar as perspectivas liberais e reformistas, acabando inclusivamente a aliviar as contradições do sistema dominante, dependendo das estruturas do Estado em vez de se tornarem um motor de transformação social e de organizações sociopolíticas autónomas de mulheres.

A Jineoloji em prática
Colocando em prática o que prega, principalmente em Rojava mas também em Bakûr (numa fase mais inicial), a Jineoloji e a luta de libertação das mulheres nasce para a vida nas assembleias autónomas de mulheres que tomam as suas próprias decisões acerca dos assuntos que lhes dizem respeito e que não estão abertos a negociação com os homens. Aplicam também a regra da copresidência – há sempre uma mulher e um homem na representação de qualquer organização e um mínimo de 40% de quota nos organismos de decisão, garantindo a presença das mulheres nestes processos.

As mulheres também conseguiram proibir a poligamia e casamentos forçados e continuam a formar as suas próprias estruturas do dia a dia, desde cuidados de saúde até à educação, legislação, justiça e economia. As Mala Jîn (literalmente “casa das mulheres”), funcionam como uma casa popular de justiça que trata de um vasto número de assuntos relacionados com a condição das mulheres – casamentos forçados, maridos que tomam segundas mulheres, abuso doméstico, entre outros – e decide sobre punições a aplicar – tal como banimento temporário da comunidade – ou serve de mediadora entre partes em conflito.

As cooperativas de mulheres também florescem em várias zonas curdas, provando assim que a luta não é apenas de libertação mental ou cultural, mas também uma luta contra a exploração e pela liberdade económica das mulheres. Para além disso, as academias de mulheres continuam a nascer e a ser completamente geridas por mulheres. Estas não funcionam como as universidades no sentido clássico do termo, em que existe uma estrutura hierárquica e uma separação entre o corpo docente e o corpo estudantil. Aqui criam-se espaços de conhecimento e troca de experiências em que a comunidade decide os assuntos a tratar.

Durante uma das nossas conversas com companheiras curdas, também nos contaram que pretendem construir vilas ecológicas para mulheres, como alternativa aos tradicionais abrigos de mulheres. Estes últimos são vistos pelo movimento como prisões, que utilizam respostas individuais para problemas sociais e acabam por penalizar as mulheres em detrimento dos atacantes. Não têm como objectivo reintegrar mulheres que são vítimas do patriarcado e da violência machista, não passando de soluções de curto-prazo que não oferecem alternativas que alterem o paradigma social.

A Jineoloji está também a ser ensinada em escolas a partir do secundário, com perspectivas de ser implementada desde o ensino básico, tentando assim criar consciência de igualdade de género desde cedo.

Os exemplos multiplicam-se a cada dia em que as mulheres lutam pela sua própria libertação e criação de uma nova sociedade, onde os abismos que tinham sido criados pelo patriarcado e a mentalidade masculina estão a ser desmantelados pelo desejo das mulheres curdas de criar uma sociedade mais igualitária e justa, em que os seus esforços para construi-la não sejam esquecidos.

As Serhildans, revoltas populares contra a colonização do Curdistão, impulsionadas e lideradas pelas mulheres há muitos anos atrás, estão hoje a florir com o nascimento de novas comunas, cooperativas, casas das mulheres e com cada mulher que faz parte da luta de libertação. A bem conhecida expressão curda de raiva ou sofrimento – “zılgıt” – hoje é um grito de alegria e vitalidade.

Guilhotina.info

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