“Rhetoric without Public”

Parafraseando e subvertendo os termos do título da representação portuguesa na Bienal de Veneza de 2018, “Rhetoric without Public” propõe um percurso pelo “Edifício Privado” de autoria portuguesa, através de 12 obras projectadas nos últimos anos de crise e de boom especulativo, num momento em que a Europa se confronta com as contradições e consequências de políticas neoliberais e a arquitectura acentua o seu conformismo como instrumento de reprodução de mais-valia ao serviço das leis universais e totalitárias do mercado na era da finança.

A implementação em Portugal de um programa neoliberal de austeridade que implicou o desmantelamento do Estado social, a privatização de serviços públicos essenciais, a abertura do mercado imobiliário ao capital estrangeiro, apenas tornou evidente a captura absoluta do Estado e das instituições democráticas pelas leis dos mercados e pelos fluxos de capitais em offshore: instituições públicas e municipais encerradas na porta giratória dos interesses monopolistas e oligárquicos dos mercados ou na mise en abyme de sociedades e fundos imobiliários, que fazem da cidade um jogo especulativo permanente, dispondo de financiamento público, fundos comunitários e grandes campanhas laudatórias em nome da Economia Nacional.

A obra pública morreu, porque o público está morto. Mas devemos ao Neoliberalismo, pelo menos, o fim do mito do fim da história. Os pressupostos que construíram a cidade liberal social-democrata das últimas décadas estão obsoletos. Noções como “obra pública”, “espaço público”, “cidadania”, “progresso” e “evolução civilizacional”, são termos esvaziados de sentido político e fazem parte da grande liturgia quotidiana que procura esconder o fim da ilusão: o crescimento imponderável das desigualdades, a precarização social absoluta em que vivemos, a iminente catástrofe ambiental planetária. A ideia de um Public without Rhetoric é apenas a continuação da ilusão por outros meios. Não é o Público que está contra o Mercado. O Público é apenas o outro lado da moeda do Mercado. É o comum (o comum da cidade) que está contra o Neoliberalismo.

Este conjunto de obras e projectos, realizados ou em curso na cidade do Porto, procura assim evidenciar o mecanismo destruidor autofágico das actuais relações entre o Público e os interesses privados (financeiros e globais) na construção da cidade de todos, mas também propor uma reflexão sobre o papel que o arquitecto desempenha actualmente em todos estes processos.

Revista Punkto

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