Dois moradores, um turista: assim pode ficar o centro histórico do Porto em caso de lotação dos alojamentos locais

Mais de 70% dos AL estão na união de freguesias do centro histórico, mostra mapeamento feito por colectivo de cidadãos. Há zonas onde o número de habitantes e turistas pode igualar-se — e os hotéis não entram nesta contabilidade.

Se os 4411 alojamentos locais (AL) situados na União de Freguesias do Centro Histórico do Porto estivessem lotados, haveria nesta zona da cidade 20.123 turistas. E isso representa cerca de metade do número de habitantes: 40.440, segundo os censos de 2011. Ou seja, para cada dois moradores, existiria um turista — e nesta contabilidade entram os hostels, mas ficam de fora os hotéis (98 unidades, segundo dados do Registo Nacional de Turismo). As contas foram feitas por Ana Barbeiro, do movimento O Porto não Se Vende e pretendem ser um “contributo para o mapeamento do alojamento local no Porto” que a autarquia diz estar também a arquitectar.

Em duas das freguesias históricas — Vitória e São Nicolau — o resultado surge ainda mais agravado: numa situação de lotação máxima dos alojamentos locais, haveria uma dormida em AL por cada habitante. E estes rácios “podem estar ainda mais agravados, dada a provável perda de população desde 2011”. Ana Barbeiro, moradora na zona histórica, partiu para a análise consciente de que algo estava mal. Mas não esperava, apesar de tudo, aquele choque. “Não tinha ideia da proporção, foi um murro no estômago”, disse ao PÚBLICO.

Foi ao ver cada vez mais desconhecidos na sua rua que decidiu consultar pela primeira vez os dados do Registo Nacional de Alojamento Local (RNAL): estariam todas aquelas casas onde testemunhava um entra e sai diário registadas para receber turistas? E quantos apartamentos no seu prédio e edifícios vizinhos tinham realmente o turismo dentro?

Em três anos e meio, a psicóloga viu erguer-se um outro Porto. “Vizinhos a sair e mercearias e cafés a fechar” por um lado, “novos estabelecimentos muito modernos e inovadores” a abrir, por outro — estes com o pormenor de, pelos preços praticados, serem quase sempre inacessíveis aos moradores. Mais ruído, festas quase todos os dias, veículos eléctricos ao estilo tuk-tuk que compensam o silêncio dos motores com música estridente, portas a abrir e a fechar a horas próprias de aeroportos, rodinhas das malas a ecoar no chão. “Coisas mínimas”, admite, “mas que acabam por se tornar incómodas,” “Não é muito fácil compatibilizar as vidas de quem vive permanentemente num espaço com aquelas que estão de férias.” E este não é apenas um problema dos despejados —1348 nos últimos cinco anos, no Porto, segundo dados do Balcão Nacional de Arrendamento —, é uma realidade para todos os moradores, obrigados a “viver num sítio que se está a tornar uma festa constante”.

[Lê mais - com links e gráficos - deste excelente trabalho de Ana Barbeiro, da Plataforma O Porto Não se vende]

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