À volta de racismo reverso e queixas à bófia

A propósito de alguns factos passados no mundo virtual do Facebook,
factos estes que viram envolvidas duas pessoas comprometidas em lutas antirracistas (no mundo real), decidimos escrever um comunicado
repudiando algumas atitudes autoritárias e discriminatórias graves que
foram reproduzidas por alguns dos elementos envolvidos, integrantes de um conhecido núcleo antifascista.

Enquanto coletivo de um espaço antiautoritário, sentimos a exigência, em primeiro lugar, de expressar a nossa solidariedade com a pessoa que foi objeto de discriminação racial e de uma ação coercitiva, nomeadamente, ser denunciada à polícia. Em segundo lugar, queremos tomar distância e rejeitar firmemente tal ato, acreditando que fazer apelo aos aparelhos repressivos do Estado (um Estado que desde sempre não reconhecemos) para a resolução de conflitos surgidos no âmbito de uma rede social é absolutamente ridículo e, sobretudo, incoerente com os princípios políticos de quem se define como antirracista e antifascista.

Porquê? Porque quem recorre, para legitimar as suas posições pessoais, a uma entidade opressora que todos os dias perpetra a violência brutal do Estado (especialmente num país como Portugal, onde o racismo pode ser considerado de cariz institucional), torna-se automaticamente cúmplice dessa mesma violência. Ainda que entregar uma pessoa ao arbítrio das autoridades repressivas nunca seja solução e nunca possa ser considerada uma «alternativa válida», a gravidade de tal ato miserável é reforçada pelo facto de a pessoa denunciada se tratar de um sujeito racializado que foi acusado de racismo reverso e difamação.

Não entraremos no mérito das motivações que levaram a que essa pessoa fosse denunciada, nem queremos assumir posições paternalistas ou que fomentem discursos vitimistas que apoiem a retórica da «culpa do homem branco». Queremos sim sublinhar a importância de reconhecermos os lugares a partir dos quais as pessoas falam, tornando visíveis estes lugares, porque, por muito que possamos ser vítimas de práticas diárias repressivas nas nossas vidas, é preciso compreender os nossos limites e perceber quando se tratam de experiências das quais não nos compete falar. E é responsabilidade de qualquer indivíduo que se declare antirracista compreender onde este limite começa e acaba. Com certeza, ir à bófia ou regozijar-se com a possível deportação de uma pessoa estrangeira (como se pôde ler em vários comentários no Facebook) não é sintoma dessa responsabilidade.

Por último, queremos alertar as pessoas promotoras deste ato cobarde,
bem como as que apoiam ou sentem afinidades com essa forma de atuar, que não são bem-vindas ao nosso espaço.

Ficamos disponíveis para ulteriores esclarecimentos.

O coletivo da Disgraça

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