“O fim da exploração animal só será possível quando o veganismo parar de focar no consumo, e se unir a outras lutas sociais”

O que o veganismo tem a ver com a luta pela reforma agraria popular? Por que é incoerente militar pela libertação animal e ignorar outras lutas sociais e pautas anti-opressão?

Segundo Sandra Guimarães, ativista, cozinheira, autora do blog Papacapim, porque é só assim, com terra e comida (e informação) acessíveis, e de braços dados com outros ativismos, que conseguiremos ver o fim da exploração animal — objetivo maior do veganismo abolicionista.

“Nenhuma revolução foi ganha sem o povo. Temos que parar de dialogar com a elite que milita por mais opções veganas no shopping e ir articular o veganismo que milita por mais comida na mesa”, disse a ativista — que é uma das grandes inspirações do veganismo interseccional brasileiro — na palestra que assisti em São Paulo no dia 14 de agosto.

Sandra vem de uma família do campo, do interior do Rio Grande do Norte. Ela foi a primeira filha a nascer na capital, em 1981. O pai entrou para o MST e viveu acampado por alguns anos, até conseguir se assentar. Sandra e os irmãos ficaram na cidade, com a mãe, para estudar. Aos 14 anos começou a trabalhar para juntar dinheiro para estudar no exterior, e aos 20 foi para a França, onde fez graduação e mestrado em linguística. Se envolveu com a causa LGBTQ e com o veganismo — que a levou a sair da academia e entrar na cozinha. Um dia foi fazer trabalho voluntário na Palestina; lá fincou raízes e começou na militância política, trabalhando com mulheres em um campo de refugiados. Sandra, que hoje mora em Berlim fazendo queijos vegetais e organiza viagens feministas-ativistas-gastronômicas em Paris e na Palestina, está no Brasil fazendo a #tourpapacapimbrasil, uma serie de encontros e oficinas para debater o veganismo interseccional e as interações do movimento com outros movimentos anti-opressão.

O número de veganos aumenta, mas a exploração animal continua aumentando também

De acordo com pesquisas, reportagens e movimentos mercadológicos, o veganismo tem crescido, aponta Sandra. Mas é uma versão liberal do veganismo, baseada no consumo. Aqui se comemoram, como se isso fosse indicador da diminuição do sofrimento animal, inaugurações de restaurantes e lançamentos de produtos “veganos” fabricados por multinacionais que continuam explorando os animais (como os sorvetes Ben&Jerry, da Unilever). A lógica é a de que a demanda vai provocar cada vez mais oferta, e que devemos incentivar essas empresas através do consumo de seus produtos. Sandra nem por um momento considera essa hipótese. Segundo ela, acreditar que o consumo vai promover a libertação animal é desconhecer a lógica do capitalismo, que cria demandas a partir de uma única premissa: a do lucro. “Desconfiem quando a solução do problema for vendida por quem criou o problema. Esse tipo de veganismo hegemônico, baseado no consumo, é elitista”. E ineficaz.

Sandra fez uma investigação para verificar se o aumento da quantidade de pessoas vegetarianas/veganas no mundo corresponde à diminuição da exploração animal. Sua conclusão é a de que não. Ela traz como exemplo a industria dos laticínios na Europa. O consumo de leite de vaca diminuiu bastante entre os europeus. Mas a produção não diminuiu. “Quem está tomando esse leite de vaca se os alemães estão tomando leite de amêndoas?”. O leite das vacas está sendo exportado para novos mercados, como a China, país sem tradição de consumo desse produto. Um mercado que está sendo aberto e explorado por multinacionais, com o auxílio de milionárias campanhas de marketing. Ou seja, exportação da exploração para países mais pobres ou em diferentes estágios de desenvolvimento. Uma prática colonialista que acaba sendo endossada pela parcela do movimento vegano que acha que a existência de mais produtos “veganos” no mercado é indicativo da diminuição da exploração animal. “O capitalismo não vai trazer a libertação animal. Porque o capitalismo e a libertação animal têm interesses conflitantes”.

O veganismo é a extensão lógica da luta contra a opressão no mundo

“As pessoas que acham que veganismo não tem nada a ver com política não entendem que ser despolitizado é privilégio”, fala Sandra em resposta a quem se incomoda quando a política “invade” o veganismo. “Se tirar a política do veganismo, vamos atingir só um tipo de gente: os que têm o privilégio de ser despolitizado”. Para quem é minoria, lembra ela, não existe essa opção. “Nossa existência é política”.

Assim, ela acredita que o fim da exploração animal só será possível quando o movimento parar de focar no consumo e se unir a outras lutas sociais. “Não vi ainda ninguém do movimento vegano falar de juntar a nossa luta ao campo”, diz ela, cujo pai é integrante do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra. “Por que a gente não está lutando do lado do MST, pela agroecologia, pela agricultura familiar? Por que, ao invés disso, a gente está decidindo se aliar a corporações multinacionais como Nestlé e Ben&Jerry?”.

Sandra fala da dificuldade de acesso à comida de verdade em um sistema no qual é mais fácil e mais barato comprar Doritos no supermercado do que couve orgânica na venda da esquina — o que também é obra de um capitalismo perverso que trata comida como mercadoria. O boicote ao sistema alimentar agroindustrial e o incentivo às redes de agricultura familiar e agroecologia, ao invés do agronegócio, fortalece as cadeias de relações que produzem alimento saudável, nutritivo e acessível, de maneira ambientalmente sustentável e socialmente justa, para todos. “A Nestlé ter leite vegetal não aumentou a acessibilidade do veganismo para todas as pessoas”. E, para que isso aconteça — pensa Sandra, assim como pensa o MST e uma grande quantidade de pessoas que estuda e pratica a agroecologia e a agricultura sustentável no Brasil — é necessário que haja uma reforma agrária popular. “Deveria ser prioridade número um do movimento vegano estar no campo lutando com eles. A gente só vai ter veganismo popular quando todos tiverem acesso à plantas”.

Para quem considera incoerente que o movimento vegano dialogue com agricultura que pratica a exploração animal, ainda que no contexto familiar e do pequeno produtor (como é o caso do MST, que tem inclusive uma marca de laticínios), Sandra lembra que temos um inimigo em comum: a bancada ruralista. “Nossa prioridade é destruir a pecuária, o agronegócio”. Não há ganho nenhum em só dialogar com quem pensa igual. Quando há objetivos importantes e alinhados, mesmo que não haja veganismo, a pauta da exploração animal fica em segundo plano, mas acaba entrando, mais cedo ou mais tarde, gentilmente, através dos hábitos, preparo de alimentos, diálogo não impositivo e não colonizador. É importante considerar que um dos recursos que o capitalismo tornou escasso é a informação. E a capacidade de discernir e decidir — que vai muito além da liberdade de escolher qual marca consome nas prateleiras do supermercado. “Nós queremos mudar o mundo para que todos tenham possibilidade de escolha. Onde todos tenham acesso à informação, para que não haja imposição”.

A gente luta lado a lado com a agricultura camponesa contra o agronegócio, em prol do alimento saudável, sem veneno, acessível, socialmente justo e ambientalmente sustentável. Enquanto isso a gente leva junto a luta anti qualquer opressão e pelo fim da exploração animal. E abandona, na prateleira do supermercado, o veganismo consumista, caro e elitista, à serviço do capitalismo.

Sandra continua a #tourpapacapimbrasil.

retirado de http://porquenao.org

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