Não aconteceu nada de novo em Serralves

Pedro Levi Bismarck

Não aconteceu nada de novo em Serralves, porque já tinha acontecido. Há muito que este se transformou num pólo de indústrias criativas e empreendedoras, que por acaso também tem um Museu de arte contemporânea (basta estar atento ao rol de eventos e iniciativas e ao modo como o museu tem dinamizado a sua comunicação nos últimos anos). Serralves exprime apenas o estado actual das instituições ligadas à cultura. O Museu é uma empresa e a sua nobre missão é vender produtos (obras de arte) de acordo com os protocolos e as regras pré-definidas pelo mercado (e pelos patrocinadores). A missão cultural é apenas a forma de legitimar uma operação puramente económica.

O Museu vive da noção fantasmagórica de um "público" que ninguém sabe o que é, mas que é apenas uma fórmula para criar um "consumidor" (o melhor exemplo é ainda a exposição sobre o SAAL - que neutralizou a potência política do projecto à custa da sua extrema estetização).

É apenas porque a obra (de arte) está reduzida à sua condição de mercadoria e o espectador à condição de consumidor estúpido-passivo, que se coloca o problema do grau de pornografia das imagens de Mapplethorpe.

O acto de censura é o menos grave de tudo aquilo a que assistimos nos últimos anos em Serralves. Mas é também o acto que torna ainda mais evidente a falência de toda uma ideia de instituições de e para a arte. Não se trata de demitir a administradora, mas de demitir de uma vez por todas uma determinada imagem de modelo de instituição (com a qual se continua a sonhar inocentemente) e avançar para a invenção e para a exigência de um outro modelo, de uma outra instituição.

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