PRAXE | Tem a cabeça encostada ao chão de um terreno descampado

PRAXE | Tem a cabeça encostada ao chão de um terreno descampado. O seu corpo está todo dobrado e as mãos estão por baixo dos joelhos. Diz que não consegue aguentar mais e tem como resposta "não me interessa" e “desenmerde-se”. Um estudante que acabou de entrar na universidade está a ser praxado por mais velhos numa qualquer parte do país.

Um homem confronta-se com a situação e começa a filmar para denunciar o que vê nas redes sociais. Um outro chega-se à frente com a mão e, com o seu corpo, tenta impedir qualquer gravação da praxe. Diz que não há permissão para filmar, quando se está num local público. Depois, e sem pudor, justifica o sofrimento do jovem com o “está a fazer porque quer” – o clássico argumento da livre vontade. “Ele quer fazer, não quer é ser filmado a fazê-lo”, acrescenta um outro na troca de argumentos.

É apenas mais uma das tantas praxes que se vêem por esta altura do ano nas proximidades de uma qualquer universidade ou politécnico. Caloiros e caloiras todas pintadas com palavras homofóbicas ou misógenas gritam no metro e aos berros frases ordenadas por quem se submete a usar fatos pretos completos e uma capa com 35ºC. Estudantes levam na cara e no cabelo chibatadas com os braços de um polvo morto só porque lhes foi ordenado. Jovens rapazes e raparigas simulam gestos e posições sexuais em público só porque lhes foi ordenado. Caloiros e caloiras são vendidos em leilão e comprados por grupos de amigos como se fossem mercadorias só porque lhes foi ordenado.

Sob a argumentação da integração, institucionalizam-se práticas e hierarquias que exercem violência sob o caloiro. É criada uma narrativa intimidatória que, caso não participe na praxe, o estudante não será integrado com sucesso durante os seus anos académicos. O medo do isolamento, esse, é a arma. A praxe existe pelo medo da não-integração e pelo vazio de alternativas que são apresentadas ao estudante.

É também uma consequência dos tempos políticos em que vivemos, onde a academia já não é vista como um espaço de igualdade, de aprendizagem mútua e de troca de experiências. É cada vez mais um espaço hierarquizado e mercantilizado.

Vídeo

Praxis Magazine
Praxis Magazine (facebook)

Comentários

Submeter um novo comentário

O conteúdo deste campo é privado e não irá ser exibido publicamente.
CAPTCHA
Esta pergunta serve para confirmar se és uma pessoa ou não e para prevenir publicaçãos automatizadas