A Economia Moral do Museu

por Pedro Levi Bismarck
Editor do Jornal Punkto. Arquitecto, investigador no CEAU e assistente convidado na FAUP

Há muito que a Fundação de Serralves se converteu num pólo de indústrias criativas e empreendedoras que, por acaso, também tem um Museu de Arte Contemporânea (basta estar atento ao rol de eventos e iniciativas e ao modo como a Fundação tem dinamizado a sua estratégia de comunicação e marketing nos últimos anos). Serralves exprime o estado actual da generalidade das instituições ligadas à arte e à cultura. O Museu é, hoje, uma empresa e a sua «nobre missão» é vender produtos (neste caso, obras de arte) de acordo com os protocolos e as exigências pré-definidas pelo mercado (e pelos mecenas). A missão cultural é, simplesmente, a forma de legitimar uma operação puramente económica.

O museu vive da noção fantasmagórica de um «público» que ninguém sabe bem o que é, mas que é apenas uma fórmula para fazer de todo o utilizador um «consumidor». O melhor exemplo é, ainda, a exposição sobre o Processo SAAL, que neutralizou a potência política de uma das experiências mais radicais da democracia portuguesa à custa da sua extrema estetização.

É apenas porque a obra (de arte) está reduzida à sua condição de mercadoria e o espectador à condição de consumidor estúpido-passivo, que se coloca o problema do grau de pornografia das fotografias de Robert Mapplethorpe. Neste sentido, o alegado acto de censura é o menos grave e o mais desinteressante de tudo aquilo a que assistimos nos últimos anos em Serralves. Mas é, também, o acto que torna mais evidente a progressiva falência de toda uma ideia de instituições de e para a arte (com a qual se continua a sonhar inocentemente). Não se trata de demitir a actual administradora, mas de demitir, de uma vez por todas, uma determinada imagem de modelo de instituição que morreu às mãos do neoliberalismo e avançar para a invenção e para a exigência de um outro modelo, de uma outra instituição.

Mais do que uma questão de súbito «puritanismo moral» ou de «conservadorismo social» do Museu (isto seria passar ao lado do amplo processo de banalização social da pornografia nas últimas décadas e, simultaneamente, sublimar a experiência artística do shock), o que está em causa é toda uma nova Economia Moral do Museu na era da sua neoliberalização, isto é, no processo da sua financeirização. Não é, pois, coincidência que perante as mesmas imagens de Mapplethorpe, essa outra instituição que é o Facebook exerça igualmente o seu direito de censura. Como não podia deixar de ser, o princípio regulador é o mesmo, o código automatizado e abstracto do algoritmo. Nesse reino sans rêve e sans merci dessa nova economia moral, «espectador» e «obra», reduzidos à sua extrema nudez (e extremo abandono), não são mais que as variáveis sem qualidades de uma equação algorítmica, cuja “maravilhosa” operação alquimista consiste, precisamente, na conversão instantânea e permanente de ambos em puros activos financeiros.

Revista Punkto

Comentários

Submeter um novo comentário

O conteúdo deste campo é privado e não irá ser exibido publicamente.
CAPTCHA
Esta pergunta serve para confirmar se és uma pessoa ou não e para prevenir publicaçãos automatizadas