Primeiras Considerações sobre o Rossio

Sendo que não sou nem pelo consenso nem pela maioria, muito menos por uma idêntica "cívica", sendo que o discurso esquerdisto-inflamado me pareça que estou no parque mayer, sendo que me dá um arrepio gelado na espinha sempre que oiço a canção da Praça do Rossio e que as tendências freako-disciplinárias de não dar mau aspecto me lembrem o aviso dos Dead Kennedys sobre o fascismo hippy do politicamente correcto, dá-se a estranha situação de que ainda não ouvi nada no Rossio que apreciasse sem, por vezes gigantescas, reservas e de que no entanto poucos momentos políticos vivi em Lisboa que fossem tão interessantes. Dito de outro modo, não me agrada necessariamente o discurso produzido nas assembleias mas agrada-me imensamente que elas aconteçam e ainda mais toda a infra-estrutura que a complementa. Chegar ao Rossio às duas da manhã e ver centenas de pessoas a discutir as suas vidas sem reservas e na medida do possível alheias às suas trincheiras ideológico-partidárias foi algo extremamente entusiasmante e que há uns meses atrás todos julgariam impossível. Creio que todos os que lá estiveram presentes recordam os primeiros momentos no segundo ou no terceiro dia em que se percebeu a força de quem ali estava e que se soube pelo modo como todos participavam e que tão cedo aquilo não ia esmorecer, talvez tenha sido esse o momento em que me rendi ao Rossio, quando à espera de encontrar uns vinte ou trinta gatos-pingados nos deparámos com trezentas ou quatrocentas ou quinhentas pessoas que não estão ali por uma fidelidade tribal mas porque de algum modo é o que faz sentido neste momento. Diga-se também que pela primeira vez sinto que a presença do BE não procura, ou não consegue, controlar o que lá se passa, e que se consegue, até ver, evitar essas situações infames e vergonhosas do envolvimento da BE no Mayday e na Pagan. É notório também como os últimos 30 anos de militância partidária atrofiaram os movimentos sociais, o recuo da esquerda para um discurso institucional faz com que neste momento haja uma enorme dificuldade em libertar a língua, o pensamento e os comportamentos de uma série de tiques, de pensar para além de um civismo disciplinado e conformado com as categorias de pensamento e de acção do presente, não se trata de reclamar mais oradores anarco-situacionistas-autónomos ou coisa que o valha, mas sinto-me mais perto do punho do ar da Raquel Varela, não obstante os anos-luz que há entre mim e ela, do que a mãozinha a abanar e da bandeira portuguesa (ou qualquer outra, a recuperação da bandeira espanhola enquanto símbolo de algo "bom" é sem dúvida o tesourinho deprimente imediato destes dias).
Deste modo entendo aquele projecto de vivência enquanto dos mais radicais que já aconteceram em Lisboa, desde logo mais do que os que pretenderam apenas encontrar apenas um casulo para as suas especificidades ideológicas. Sinto que no entanto não encontrei ali na praça algum eco para o projecto que naquele contexto achava mais interessante: construir a cidade ocupada, multiplicar os espaços de vivência, de debate e de encontro para além do órgão centralizado da assembleia. Tenho pouco interesse em ir à assembleia contrapor aos discursos dominantes uma qualquer subjectividade minha ou de outros porque nem acho interessante explorar as clivagens ideológicas presentes nem tenho particular vontade de extremar, naquele momento, o conflito que por vezes ali se vive. Creio que neste contexto, e é isso que o torna tão interessante, tudo está em aberto quanto às possibilidades de elaborar discursos e práticas naquele contexto, e que será bastante mais interessante multiplicar as posturas as momentos de discussão e de acção de que presumir construir uma unicidade artificial e instrumental que acaba por desabar por si própria. Parece-me essencial usar esta força enquanto poder para construir algo mais duradouro, e sobretudo mais profundo politica e quotidianamente, do que as assembleias que são muitas vezes auto celebratórias e circulares.
Não percebo quem se mantêm alheio a todo este processo por não o achar suficientemente radical sem procurar sequer qualquer tangencialidade a ele, que é quanto basta. Recusar ver o que há de minimamente interessante no que ali se passa parece-me uma enorme capitulação ante um conformismo auto-referencial. Por último reservo o círculo mais quente do inferno a que ali não esteve por um qualquer repúdio estético, por achar a presença no Rossio demasiado freak ou algo do género, argumentar uma pretensa sofisticação estética ou teórica que salvaguarde uma participação ali é ter um enorme cadáver na boca e alinhar com o mais bacoco dos provincionalismos.
Poucas vezes se terá lido no spectrum pela minha mão, ou pela maioria das outras, qualquer elogio tão rasgado a algo que tenha acontecido ou esteja a acontecer, será talvez pela impressão de se estar a ver algo de novo e não um filme que já se viu mil vezes.

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