"Notas para intensificar o querer-viver"

(texto que circulou na Acampada do Porto/Batalha)

Notas para intensificar o querer-viver

Os nossos sonhos garatujados em faixas e cartão não podem correr o risco de ser mera técnica de marketing, tranquilizadores como um anúncio de Seguros de Saúde, anestesiantes como o último anti-depressivo.

A impotência. O sentimento de impotência é a medida exacta com que o capitalismo nos rejeita. Sentimo-nos impotentes, porque a nossa vida não tem lugar dentro da máquina do capital; sentimo-nos impotentes por estarmos integrados na máquina de produção do capitalismo. Em ambos os casos, a vida não tem lugar: tem lugar o atropelamento da dignidade, o esmagamento da criatividade, o estrangulamento da possibilidade de-ser de cada um, tem lugar o rebaixamento das qualidades humanas, tem lugar a humilhação e a discriminação, tem lugar o vazio colectivo.

Que é a vida e o querer-viver?

Sim, existem tantos caminhos possíveis como formas de pensar a realidade e o mundo.
Mas poderemos sair da impotência, que nos esmifra a vida e a vontade de viver, pedindo pela integração na máquina que perpetua a humilhação e a injustiça social? Podemos exigir reformas, a um sistema que argutamente não pára de se reformar, não na direcção das ilusórias expectativas de transformar a sua base anti-democrática e oligárquica, mas no sentido de se auto-sustentar, de se auto-preservar? O que foi esta propalada crise, senão uma estratégia de o grande capital, e o poder político a ele submetido, reestruturar a sua forma de perpetuar o desvio de riqueza produzida por todos para uma elite?
O desejo de reformar um sistema injusto até ao tutano é ainda um sinal da nossa impotência, da nossa incapacidade para pensar além dele. Em que medida podemos deixar que o capitalismo reforme os nossos sonhos, se os nossos sonhos são o mínimo exigível a quem deseja uma real emancipação do ser humano, uma real construção colectiva e libertária, em todos os territórios por onde a vida se concretiza? O capitalismo, na sua fase actual, mostrou aos filhos da classe média, à geração Euro-pá!, a sua face mais crua: precisa de ti e de que ocupes esse lugar, o do integrado e\ou o do excluído, para manter o seu império. Fez-te crer que não tens outra escolha.
Há já muito tempo que a máquina produtiva-consumidora capturou o teu querer-viver. Ao entrares no jogo da mercadoria, em que se transformou o corpo-espírito, o teu desejo já não será gritares ao alto os teus sonhos, esborratá-los nas paredes da máquina que oprime, mas negociares o preço da tua venda e da venda do teu querer-viver. Contra política do corpo estacionário, sob a alçada arbitrária da Lei e da violência, deixa que a intensidade da vida se transforme num impulso vital e flagrante.
Ou colocámos a fasquia dos nossos sonhos alta em demasia, e não faltará muito para que os deitemos ao caixote do lixo da história, ou não teremos outro caminho senão aquele que faz com que sintamos esse querer-viver encostado contra este beco sem saída. Sair do beco será, irremediavelmente, desertar da máquina do capitalismo, impedir que o corpo, as tripas, os pulmões, se tornem mercadoria, escorraçar a incubação da morte suave, ao serviço da mentira da sociedade do bem-estar, da sociedade de consumo, da sociedade feliz do desenvolvimento.

É possível abrir um mundo, um mundo distinto deste mundo enfeitiçado por falsos pactos de estabilidade, por sono, por tédio, humilhação, servidão, depressão e destruição.
Se a consciência já te levou à conclusão de que a tua vida e a de tantos outros é mal-estar e uma mercadoria flexi-emprego, mais ou menos rentável, não terás de recusar primeiro essa “vida” para transformar a realidade que desejas? Tirar consequências é duro: é não ter medo de admitir que todo o tipo de relações a que nos submetemos no mundo dominante de hoje, baseadas na prática autoritária, impositiva, anti-dialogante, não-democrática, onde não só calas e comes, como és transformado num objecto que reproduz esse ciclo de valores, tem de ser refutado.
Se o teu corpo se recusa a ser uma micro-empresa, porque não espalhas, com os demais corpos feridos na sua realização humana, as sementes da cooperação, da decisão colectiva, da solidariedade diária, da construção democrática e libertária das relações que tecem a tua subsistência e o teu querer-viver?
Desertares da micro-empresa em que o capitalismo transformou a tua vida, não acaba por si com a macro-empresa global, mas acaba com o teu medo à vida: a uma vida agarrada pelas tuas mãos.
Quando faremos juntos a organização do espaço colectivo, não o espaço de um protesto efémero – válido, legítimo, retemperador, tardio, mas que pode pulsar – mas a organização da vida colectiva? Onde estaremos daqui a 3 ou 4 semanas? Ou melhor, o que faremos e como faremos para regressar ao querer-fazer-a-vida, daqui a 3 ou 4 semanas? De que outra paixão, e sonho pela vida, falam vós? Senão a do autogoverno, da soberania colectiva e autónoma? De que outra democracia falam vós senão daquela que irrompe dentro do vosso corpo-boca-espírito pela vida fora? Que outro desejo vos trespassa como um relâmpago, senão o de dispor do poder colectivo e horizontal de organizar o tempo activo/produtivo, o tempo livre, ao fim ao cabo, o teu tempo vida-vida?
Onde vais querer fazer a democracia real de que falas? No parlamento? Na Tv? Nas empresas, que nem sequer te pedem o voto de x em x tempo para legitimarem a sua autarcia, a sua auto-imposição? Sonhar alto faz bem, mas só se evita a queda se os pulsos forem intransigentes: não é o sistema que tem de começar de novo, é a nossa vida em comunidade, cooperação e autogestão. O demais, virá daí.

Desertar do capitalismo é romper com as relações de poder e os valores a que ele nos sujeita: império do autoritarismo, império do individualismo, império da competição, império do patriarcado, império do crescimento perpétuo, império do espectáculo... Desertar do império é um passo radical que te fará viver o querer-viver, como quem respira de novo. Certo que, quando se deserta do capitalismo, deve desertar-se a olhar para trás. Olhar para aqueles que ficam, sob as condições ignóbeis de sujeição da vida. A isso se pode chamar solidariedade. Consciência de que não estamos sozinhos – paradoxo contemporâneo, em nenhum período histórico se cumpriu tão avassaladoramente esta sina de haver tanta gente fisicamente só, o que parece provar que a própria solidão, ou o estar-a-só, decorre de um processo de socialização, desta socialização dominante e cadavérica que o império foi desfiando.
Não escolher desertar e, ainda assim, querer ocupar a rua e as praças é continuar por um caminho clássico de combate político, que não visa superar a regulação capitalista e a sua dominação nas formas de organização da sociedade.
Estar na praça, ou na rua, é um bálsamo, uma feliz vontade de indignação colectiva, uma possibilidade de unir forças e energias. Mas não tenhamos ilusões, a praça e a rua são espaços simbólicos que restam: lá não mora a conflitualidade. Aqueles contra quem agora muitos se insurgem, agências de rating, alta finança, patronato, partidos, sindicatos – com distintas responsabilidades na lógica de submissão à ignomínia e à política da desumanização – fizeram da tua vida guerra, conflito, incapacidade para subsistires sem a dependência de um sistema que sabes injusto até à medula, que se funda na acumulação perpétua, espalhando violência económica e social, e destruindo as fontes de energia. Não compreendas demasiado depressa: quando se diz que a praça e a rua não é um espaço de conflitualidade, não se pode pressupor que se defende o conflito, mas que não se pode negá-lo. Há que destruí-lo, na exacta medida da sua dimensão: o conflito é aquilo em que o capitalismo transformou o mundo e a vida de milhões. Deve pensar-se se a estratégia de reformá-lo, não passa de um adiamento da destruição perpétua, ou da via salvífica para salvares a tua pele (“nós” que esquecemos “os outros”, “o resto”, porque tivemos a circunstância de estar na abundância do parque central do capitalismo, a Europa, e não queremos perceber que essa acumulação de riqueza, essa liga de campeões da abundância, se constituiu na mentira, na opressão, na destruição irreparável de culturas e recursos naturais), exigindo apenas a boleia do capitalismo de rosto humano... Conquanto, aquilo que não pode ser pedido que tu faças é pacificar a guerra em que converteram a tua vida. Dão-te guerra e exigem que sejas tu a pacificá-la, eis a pedagogia de controlo da classe dominante, e quantos dos acampados terão pruridos em aceitar este facto. A praça, a rua, são o que são: um bálsamo, uma feliz vontade de indignação colectiva, uma possibilidade de unir forças e energias. Posta de parte a deserção pela vitalidade do querer-viver, ocupar a rua é uma estratégia politicamente criativa, simbólica, imaginativa, surrealizante. Mas o surrealismo vende como BigMacs, e já só liberta toxinas. Toda a estratégia clássica, agora ancorada no cidadanismo, de reformar o poder em que assentam as organizações políticas, económicas e financeiras que regulam o modo de vida das sociedades, ou isso de mudar quem detém o poder, alterar quem faz e dita esse monólogo, controlar mais directamente os políticos (?!... com tecnologia de ponta, pulseiras electrónicas, chips biónicos, vê-se…) é uma batalha que, obviamente, poderá ter consequências. A primeira delas, perpetuará as relações de poder anti-democráticas em que se baseiam as organizações que regulam a sociedade, mas poderá aplacar, momentaneamente, as mais recentes investidas aos direitos sociais e laborais, poderá adjudicar junto do poder vias de diálogo, aprovação de projectos de lei: ou seja, poderá eficazmente (o que é a eficácia, será fazer desaguar durante 3 anos rios de gente, heterogénea, pelas ruas do país, como na Grécia... mas o que sucedeu na Grécia, que diálogo encetou o poder? Que projectos de leis foram aprovados? Que direitos foram reconquistados? Que soberania foi garantida pelos cidadãos? Ou, muito menos, que poderes se puseram em causa?), reconquistar o supérfluo, para que o essencial continue espoliado. Que aqui não se leia um desincentivo a essa campanha, ou, bem pior, justificar a estupidificante tese do quanto pior melhor. Mas se a estratégia é o campo autorizado da reivindicação ao poder – e não (ou sem), a deserção do ciclo mercadoria-máquina –, a lista de propostas ao Parlamento, os pacotes de exigências à Banca, os cadernos reivindicativos às entidades europeias, então, há um erro no cenário, não é na praça e na rua que se desenrola essa batalha, mas lá onde o capital transforma o ser humano numa força de produção, numa mercadoria que gera mercadoria, que por sua vez gera força de produção, cumprindo um ciclo de desumanização. É lá onde o capital humilha e faz com que cada um se encontre na condição de humilhar tudo à volta: nos locais de trabalho, nas instituições do Estado, nos Centros de Emprego, nas Escolas, no Parlamento... aí, é o quartel-general onde a guerra tem lugar e nos arregimenta.

Na praça... sim, mas virados para quem? As assembleias, os cartazes, os discursos, os manifestos, virados para quem? Contra os políticos, os partidos, os governantes, a banca, o patronato, os sindicatos, as elites? Zapatero: "Temos de ouvir os manifestantes"... Se um jornalista, usando da argúcia a que nos habituaram, encontrar o empresário Belmiro de Azevedo, não será difícil imaginar palavras de apoio, por detrás de um sorriso cínico, "os jovens têm direito a sair à rua... a manifestar-se...”. A praça é o que resta, como uma espécie de luna-parque das sociedades neo-liberais, onde de longe a longe o cidadão se exprime ao vento.

Se a matéria do sonho é a própria eficácia de poder reivindicar, de recuperar a estabilidade da “dignidade” laboral (quando houve dignidade laboral sob regime capitalista?), de aumentar o poder de compra, de melhorar os apoios sociais, de legalizar a precariedade, ou seja, recuperar com o capitalismo para o bem comum – infra-visão que sonha com a aspirina para si e com o suicídio assistido para o resto do mundo –, então, ocupem-se os espaços onde nos humilham, onde o mal-estar é lei. É também aí, nos espaços-guerra-mercadoria, que reconheceremos a “real democracia” do capitalismo actual: os políticos, iguais a si próprios na defesa dos seus interesses, teriam como único argumento a polícia. Assim, se destaparia esse véu já de si tão esfiapado.

Não queiramos correr o risco de denunciar a miséria deste tempo usando apenas frases pichadas em cartões e papel reciclado. Cairíamos na mais alienante espectacularizaçăo: tu como espectador do teu próprio slogan.
Os teus pulsos têm de ter as ganas das palavras que saem da tua consciência. “Não nos deixam sonhar, não vos deixaremos dormir”. Não se pede licença para sonhar. É por a "verdade" de sonhar contra este tempo nos parecer o mais sensato e urgente, que o sonho não pode ser um fim, mas o começo de tudo. Sim, existem tantos caminhos possíveis como formas de pensar a realidade e o mundo. Que esta nossa maneira de entender o mundo possa ser um equívoco não nos impede de já termos começado esse caminho. Amor ao querer-viver, ao alto!

Maio.2011. @minóna