O escândalo Climategate
Passaram há pouco 42 anos sobre um dos maiores desastres de origem climática em Portugal: as inundações de 1967 em Lisboa. Centenas de mortes e centenas de milhões de prejuízos materiais. Será que este desastre se deveu às emissões de CO2eq (CO2 equivalente) ou ao aquecimento global? Claro que não!
Aliás, na altura, a imprensa internacional explorava os receios de uma nova idade do gelo devido ao arrefecimento global que se verificava.
Em 1967, a probabilidade de ocorrência da precipitação que provocou o desastre em Lisboa era conhecida. Uma precipitação com características análogas pode repetir-se amanhã e as suas consequências só serão menores se as necessárias medidas de prevenção forem entretanto tomadas (e nem todas o foram!).
Catástrofe de Nova Orleães não foi causada pelo aquecimento global
O que se passou com a destruição de Nova Orleães pelo furacão Katrina foi análogo: as consequências de um furacão com aquelas características eram bem conhecidas, e as imprescindíveis obras de reparação e reforço das protecções foram insistentemente pedidas mas sistematicamente adiadas.
A catástrofe não teve nada que ver com emissões de CO2eq ou aquecimento global. As tragédias climáticas no Bangladesh, não são provocadas por emissões de CO2eq, aquecimento global ou subida do nível do mar mas sim pelas inundações resultantes do assoreamento dos rios originado pela erosão que as extensíssimas desflorestações a montante agravaram e pelo crescente aumento do número de habitantes e construções em leito de cheia.
Segundo a ONU, mais de mil milhões de pessoas estão actualmente ameaçadas pela fome ou subnutrição, e agita-se o fantasma do seu aumento ou das suas migrações massivas se não forem combatidas as emissões de CO2eq para reduzir o aquecimento global.
A situação dramática e escandalosa destes milhões de seres humanos não tem nada a ver com as emissões de CO2eq, nem com o aumento oficial de 0,8ºC na temperatura média global nos últimos 150 anos.
Temperaturas não aumentam desde 1998
Aliás, apesar de as emissões de CO2eq terem aumentado acima do cenário mais pessimista do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) da ONU, desde 1998 que a temperatura global não aumenta.
Os exemplos anteriores poderiam continuar mas a conclusão seria sempre a mesma: as consequências catastróficas de fenómenos climáticos são evidentes e têm aumentado devido a acções humanas.
O que sucedeu em 1967 em Lisboa e se repete cada vez mais agravado por esse mundo fora não é devido a emissões de CO2eq ou alegado aquecimento global.
É devido simplesmente ao facto de fenómenos climáticos naturais, que sempre existiram, terem efeitos cada vez mais catastróficos porque as acções humanas sobre o território criaram as condições para isso ao desflorestarem as cabeceiras de rios (que agravaram o seu assoreamento e as consequentes inundações), ao aumentarem os riscos de deslizamento das encostas (porque eliminaram a vegetação que as estabilizava), ao construírem cada vez mais em leitos de cheia, e ao provocarem alterações cada vez mais extensas e profundas no uso do solo.
Os efeitos das alterações no uso do solo são cada vez mais evidentes nas alterações climáticas locais e nos seus reflexos globais.
Sendo evidente que a variabilidade natural do clima sempre existiu e que as acções humanas têm vindo a agravar os seus efeitos, a subversão conceptual que a UE liderou, reduzindo tudo, ou quase tudo, às consequências do aquecimento global provocado por emissões de CO2eq é muito grave e, em última instância, contrária aos louváveis ideais que afirma defender e que suscitam o apoio das organizações ambientalistas e de multidões de bem intencionados.
Um dos maiores escândalos científicos da História
É neste contexto que rebenta o escândalo do chamado Climategate. Em termos da comunidade científica, o Climategate é um dos maiores escândalos científicos da História, não só pelo modo como afecta a credibilidade pública da comunidade científica mas sobretudo pelas implicações económicas e políticas de que se reveste.
De facto, nunca existiram tantas declarações, tantos tratados, tantos protocolos e tão gigantescos fluxos financeiros tendo como único fundamento a credibilidade e o suposto consenso da comunidade científica expresso nos Summary for Policy Makers (SPM) do IPCC.
Esse fundamento desapareceu, mas os interesses envolvidos (políticos, económicos, financeiros e industriais) são de tal monta e a percepção pública da fraude científica é tão lenta que a ficção criada pela UE ainda se irá manter durante muito tempo.
O Climagate consistiu na divulgação, através da Internet, de um conjunto de ficheiros, que incluem programas de computador e emails trocados entre alguns dos principais autores dos relatórios do IPCC, de entre os quais assumem particular relevo os de Phill Jones, director do Climate Research Unit (CRU) da Universidade de East Anglia e Hadley Centre (Reino Unido), de autores do notório hockeystick e instituições responsáveis pelas bases de dados climáticos, como o National Climate Data Center (NCDC) e o Goddard Institute for Space Studies (GISS) dos EUA, consideradas de referência pelo IPCC.
O hockeystick é o termo usado entre os cientistas para designar o gráfico (ver nesta página) em forma de stick de hóquei que representa a evolução das temperaturas do hemisfério norte nos últimos mil anos, e que foi criado por um grupo de cientistas norte-americanos em 1998.
Manipulação de dados
Os referidos ficheiros encontravam-se num servidor do CRU e a sua autenticidade não foi até agora contestada. Aliás, muitos deles apenas confirmam o que há muito se suspeitava acerca da manipulação/fabricação de dados pelo grupo.
Todavia, muito do que era suspeito e atribuível a erro humano surge agora como intencional e destinado a manter a "verdade" (do IPCC) de que houve um aquecimento anormal e acelerado desde o início da revolução industrial devido à emissões de CO2eq.
Esta "verdade" é incompatível com o Período Quente Medieval (em que as temperaturas foram iguais ou superiores às actuais apesar de não existirem emissões de CO2eq) e a Pequena Idade do Gelo que se seguiu. É também incompatível com o não aquecimento que se verifica desde 1998. Esconder ou suprimir estas constatações foram objectivos centrais da fraude científica agora conhecida.
Silenciar os cientistas críticos
Em termos científicos, o que os emails revelam são os esforços concertados dos seus autores, junto de editores de revistas prestigiadas, para não acolher publicações que pusessem em causa as suas teses ou os dados utilizados pelo grupo, recorrendo mesmo a ameaças de substituição de editores ou de boicote à revista que não se submetesse aos seus desígnios.
Propuseram-se mesmo alterar as regras de aceitação das publicações para consideração nos Relatórios do IPCC de modo a suprimir as críticas fundamentadas às suas conclusões. Em resumo, procuraram subverter, em seu benefício, toda a ética científica da prova, da contraprova e de replicação de resultados que está no cerne do método científico, controlando o próprio processo da revisão por pares.
Em conjunto, conseguiram impedir que fossem publicados a maioria dos dados e conclusões que pusessem em causa e com fundamento o seu dogma do aquecimento global devido às emissões de CO2eq.
O Climategate provocou já uma invulgar reacção internacional, como uma simples pesquisa no Google imediatamente revela (mais de 10.600.000 referências menos de uma semana depois da sua revelação).
No intenso debate internacional em curso e que irá certamente continuar por muitos meses/anos, surgiram já todos os habituais argumentos de ilegalidade no acesso aos documentos; de idiossincrasias próprias de cientistas-estrelas que se sentiram incomodados; citações fora de contexto, etc.
Em meu entender, o mais revelador e incontestável nos ficheiros divulgados nem são os emails, apesar do que mostram quanto ao carácter e a honestidade intelectual dos cientistas intervenientes, mas sim os programas de computador para tratar os registos climáticos que utilizaram para justificar as conclusões que defendem.
Diga-se o que se disser, os programas executaram o que está nas suas instruções e não o que os seus autores agora vêem dizer que fizeram ou queriam fazer.
Dados climáticos até 1960 destruídos
Antecipando porventura o que agora sucedeu, os responsáveis pelos dados climáticos de referência arquivados no CRU, vieram publicamente confirmar que destruíram os dados das observações instrumentais até 1960 e que apenas retiveram o resultado dos tratamentos correctivos e estatísticos a que os submeteram.
Ou seja, tornaram impossível verificar se tais dados foram ou não intencionalmente manipulados para fabricar conclusões. Neste momento há provas documentais indirectas de que o fizeram pelo menos nalguns casos.
Existe ainda um efeito perverso na referida manipulação que resulta de os modelos climáticos utilizados para a previsão do futuro terem parâmetros baseados nas observações climáticas passadas, que agora estão sob suspeita.
Afecta também todas as calibrações de observações indirectas relativas a situações passadas em que não existiam registos termométricos.
Independentemente de tudo isto, o mais perturbador para os alarmistas é o facto de, contrariamente ao que os modelos utilizados pelo IPCC previam, não existir aquecimento global desde 1998, apesar do crescimento das emissões de CO2eq.
E se alguma coisa os ficheiros do Climagate revelam são os esforços feitos para que este facto não fosse do conhecimento público.
Comportamento escandaloso e intolerável
O comportamento escandaloso e intolerável de um grupo restrito de cientistas que atraiçoaram o que de melhor a Ciência tem só foi possível porque um grupo de políticos, sobretudo europeus, criou as condições para o tornar possível.
Isso ficou claro desde a criação do IPCC e torna-se evidente para quem estuda os relatórios-base do IPCC (WG1-Physical Science Basis) e os confronta com os SPM.
Todavia, seria profundamente injusto meter todos os cientistas no mesmo saco, pelo que é oportuno lembrar que se deve a inúmeros cientistas sérios e intelectualmente rigorosos uma luta persistente e perigosa contra os poderes estabelecidos, para que a ciência do IPCC fosse verificável e responsável.
Foram vilipendiados e acusados de estar ao serviço dos mais torpes interesses. Os documentos agora revelados mostram que estavam apenas ao serviço da Ciência e do rigor e honestidade dos métodos que fizeram a sua invejável reputação.
Seria também irresponsável agir como se as consequências da variabilidade climática e da utilização desbragada de combustíveis fósseis tivesse desaparecido com a revelação do escândalo. Muito pelo contrário.
Problemas ambientais de fundo devem ser atacados
Chame-se variabilidade climática ou alteração climática, os problemas de fundo da sustentabilidade ambiental permanecem e agravam-se pelo que devem ser atacados com determinação e realismo.
Se os esforços internacionais mobilizados para a Cimeira de Copenhaga conseguirem ultrapassar a obsessão do aquecimento/emissões (liderado pela UE) para se concentrarem na eficiência energética, nas energias renováveis, na minimização dos efeitos das alterações nos usos do solo, no combate à desflorestação, à fome e aos efeitos da variabilidade climática, teremos uma grande vitória para o planeta se a equidade e a justiça social não forem esquecidas.
Ao que parece, as propostas da China e dos EUA vão neste sentido tendo a delicadeza suficiente para não humilhar a União Europeia. Esperemos que sim.
*Professor catedrático do Instituto Superior Técnico
http://aeiou.expresso.pt/gen.pl?p=stories&op=view&fokey=ex.stories/550438
Commenting on this Publicação aberta is closed.


Comentários
Alguns dizem que há interesses por trás desse tal de aquecimento global. Pode até haver alguns que se aproveitam no meio de uma coisa midiática tão grande, mas enquanto esse absurdo empirismo dessa gente que comanda e domina essa questão não aplicar as ciências de conhecimento universal e assim continuar cometendo erros tão absurdos e elementares da física básica, podem deixar que se trata apenas de ignorância científica mesmo e, por isso, uma “conspiração” climática mundial não se sustenta, pelo menos antes que eles entendam e reolvam corretamente a questão. E já deram muitas provas disso, em seus “modelos” fajutos (os quais são ajustados para darem os resultados desejados. Que absurdo!), em publicações de revistas, em “previsões”, etc.
Quem comanda e domina essa questão no mundo é o IPCC e seus meteorologistas, climatologistas, hidrologistas e áreas relacionadas, os quais, para afirmar que existe aquecimento “global”, absurda e ingenuamente relacionaram um aumento de temperatura com um aumento de CO2. Mas, para constatar que haja aumento de aquecimento atmosférico não basta uma simples e ingênua relação de um parâmetro com outro, pois na atmosfera há muitos outros parâmetros que precisam ser relacionados entre si para podermos realmente constatar um aumento de aquecimento global. E tais relações são baseadas na teoria física da questão, o que não se vê os profissionais acima relacionados fazerem, por isso erram tanto e tão absurdamente. E falo isso não apenas em relação às coisas que se vê na mídia, mas em relação às publicações de suas revistas internacionais, cujos artigos deveriam ser um primor de ciência, mas não são, são muitos e enormes absurdos mesmo.
Além de eles terem relacionado somente um único parâmetro com outro, eles escolheram apenas as partes da história em que há os referidos aumentos, mas há outras partes da história em que há reduções dos valores desses parâmetros que não foram considerados por eles. É nessa hora que entram aqueles que dizem que houve, há ou haverá um resfriamento atmosférico em vez de aquecimento, os quais escolheram para suas afirmações exatamente o lado contrário dos outros, ou seja, quando os referidos parâmetros decrescem, cometendo o mesmo erro, só que do lado contrário. Vale lembrar que os empíricos só dependem de dados experimentais, os quais têm uma variabilidade natural complexa que confunde se as análises não forem ajudadas pela verdadeira teoria científica. Trabalhei teórica e experimentalmente com sistemas de aquecimento atmosférico aberto e fechado e quase tudo que tem sido dito sobre o tal do aquecimento “global” está completamente errado, inclusive pelos que falam em resfriamento atmosférico. Conheçam mais em sartori-aquecimentoglobal.blogspot.com.
CLIMATEGATE NA LUSA
http://www.youtube.com/watch?v=mclI0K2lus8
Desculpa lá
Mas será que leste mesmo o texto?
Não é um escândalo, é manipulação e propaganda
De facto, este caso é um empolgar de informação (e-mails entre investigadores) que foi roubada e que foi pesquisada até ao limite para encontrar uma palavra que pudesse ser manipulada para usar na propaganda anti-alterações climáticas. Que já estava morta e enterrada na comunidade científica, mas agora ganha um novo argumento para aqueles (Exxon, Bush, etc.) que tanto pagaram para manter a ideia de que não há aquecimento global e que tudo vai bem no sistema capitalista.
Afinal, parece que tudo, ou quase tudo, roda à volta do uso da palavra "trick" num dos e-mails trocados. E calha mesmo em cima de Copenhaga, ao lado de outra propaganda que agora tem aparecido sobre o petróleo abiótico (produzido a partir do magma). Coincidência? Para mim não. Trata-se de uma campanha muito bem planeada para semear a divisão nos movimentos e opinião pública, para apoiar a inacção para resolver as alterações climáticas.
Mas não há tempo para palermices, o único tempo que temos, e é pouco, é para a acção.
Published online 24 November 2009 | Nature 462, 397 (2009) |
doi:10.1038/462397a
News
Storm clouds gather over leaked climate e-mails
British climate centre reeling over Internet posting of sensitive material.
Quirin Schiermeier
The online publication of sensitive e-mails and documents from a British
climate centre is brewing into one of the scientific controversies of
the year, causing dismay among affected institutes and individuals. The
tone and content of some of the disclosed correspondence are raising
concerns that the leak is damaging the credibility of climate science on
the eve of the United Nations climate summit in Copenhagen in December.
The Climatic Research Unit (CRU) at the University of East Anglia (UEA)
in Norwich confirmed on 20 November that it had had more than 1,000
e-mails and documents taken from its servers, but it has not yet
confirmed how much of the published material is genuine. "This
information has been obtained and published without our permission,"
says Simon Dunford, a spokesman for the UEA, adding that the university
will undertake an investigation and has already involved the police.
Many scientists contacted by Nature doubt that the leak will have a
lasting impact, but climate-sceptic bloggers and mainstream media have
been poring over the posted material and discussing its contents. Most
consist of routine e-mail exchanges between researchers. But one e-mail
in particular, sent by CRU director Phil Jones, has received attention
for its use of the word "trick" in a discussion about the presentation
of climate data. In a statement, Jones confirmed that the e-mail was
genuine and said: "The word 'trick' was used here colloquially as in a
clever thing to do. It is ludicrous to suggest that it refers to
anything untoward."
"If anyone thinks there's a hint of tweaking the data for non-scientific
purposes, they are free to produce an analysis showing that Earth isn't
warming," adds Michael Oppenheimer, a climate scientist and policy
researcher at Princeton University in New Jersey. "In fact, they have
been free to do so for decades and haven't been able to."
"There are apparently lots of people who really do think that global
warming is an evil socialist plot, and that many scientists are part of
the plot and deliberately faking their science," adds Tom Wigley, a
senior scientist at the National Center for Atmospheric Research in
Boulder, Colorado, and former director of CRU.
Alleged e-mails containing critical remarks about other climate
scientists are merely proof of lively debate in the community, adds
Gavin Schmidt, a climate researcher with NASA's Goddard Institute for
Space Studies in New York City.
The title of the uploaded file containing the leaked e-mails —
'FOIA.zip' — has led to speculation that the affair may be linked to the
deluge of requests for raw climate data that have recently been made
under the UK Freedom of Information Act to Jones (see Nature 460, 787;
2009). The source of many of those requests is Steve McIntyre, the
editor of Climate Audit, a blog that investigates the statistical
methods used in climate science. "I don't have any information on who
was responsible," McIntyre told Nature.
Nevertheless, e-mails allegedly sent by Jones seem to illustrate his
reluctance to comply with these requests. "All scientists have the right
to request your data and to try to falsify your results," says Hans von
Storch, director of the Institute for Coastal Research in Geesthacht,
Germany. "I very much respect Jones as a scientist, but he should be
aware that his behaviour is beginning to damage our discipline." In a
statement, the UEA said: "The raw climate data which has been requested
belongs to meteorological services around the globe and restrictions are
in place which means that we are not in a position to release them. We
are asking each service for their consent for their data to be published
in future."
However, von Storch believes that, at least until the affair is
resolved, Jones should cease reviewing climate science for the
Intergovernmental Panel on Climate Change.