As mentiras do ardina: Resposta aberta ao Renato Teixeira
As mentiras do ardina: Resposta aberta ao Renato Teixeira
Desculpa se te sentes picado ao ponto de teres escrito uma resposta ao meu texto que parece ser mais propulsionada por um desesperado agarrar a algo que está-se a afundar, como a Plataforma ou os Indignados com letra maiúscula, do que por um desejo de compreender e discutir o que foi dito. Mas sinceramente, nunca imaginei entrar numa discussão contigo, pensava estarmos em dois mundos tão diferentes que seriam incapazes de se tocar. Na verdade continuo a pensar que somos incapazes de comunicar.
“prefere a mentira aos factos e aos argumentos e prescinde de fazer o debate que tanta falta faz ao movimento”. No texto “os novos fascistas são democratas” que eu saiba não estavam mentiras nem calúnias, mas se estavam por favor diz quais, coisa que não fazes. Os diferentes momentos relativos à manif de dia 21 de Janeiro de que falei foram presenciados ou estão explícitos nos vários vídeos a circular na net sobre os confrontos com os fascistas. Os outros momentos de que falo dizem respeito a coisas do passado que continuam presentes: a isso se chama memória.
Na verdade, a falta de argumentos parece mais estar do teu lado do que nesse texto; é no teu texto de resposta que sobram acusações (começando por atirar que o “os novos fascistas são democratas” foi escrito por anarquistas – será que foi? Será que não foi? Talvez isso não interesse para nada, pois o conteúdo é a contribuição, e como tu próprio, que tens o dom da palavra e da assembleia, deves muito bem saber, em lógica o que tu fazes tem um nome: falácia ad hominem http://pt.wikipedia.org/wiki/Argumentum_ad_hominem ). E, mais grave ainda , o que fazes, ao nomear um grupo de indivíduos como autores seja do que for quando por alguma razão esse “seja o que for” é anónimo, é dos jogos mais sujos que a polícia e os jornais fazem há anos, aqui e não só. E este simples facto já era razão para levares na tromba.
E é sobre a tal falácia ad hominem que assentas o teu texto, não sendo capaz de ver que não havia qualquer tipo de referência a nenhuma ideologia ou grupo político no meu texto, a não ser aos fascistas, ao cidadanismo, aos indignados e à Plataforma 15 de Outubro. Aliás, tu não sabes, mas seria incapaz de tentar enaltecer qualquer ideologia ou qualquer grupo político, por considerar as ideologias e a política como parte integrante deste sistema de dominação. “A nossa única relação com a política é uma relação de guerra”, diziam Os Cangaceiros ( http://theanarchistlibrary.org/HTML/Os_Cangaceiros__A_Crime_Called_Freed... ), pondo em palavras o que muitos sempre sentiram ao longo do tempo.
Mas como tu próprio poderias ter reparado se estivesses estado atento ao que se passava na rectaguarda da manifestação, uma grande variedade de indivíduos de diferentes origens se encontraram ali, como refiro no texto “os novos fascistas”. E falo precisamente dessas vontades individuais que se encontraram e partilharam aquele momento como sendo o que tornou possível os fascistas terem sido postos a andar.
Dizeres que “recuperei” seja o que for, que evangelizei ou que “o companheiro acredita que é capaz de dobrar sozinho, num barco pequeno e leve, os diferentes fascismos que o movimento enfrenta nas ruas do protesto” é, portanto, desprovido de lógica. Literalmente. Não dá para perceber de onde é que isso te saiu; percebes? E um àparte: não me trates por companheiro, isso é um insulto para mim. E um segundo àparte, o barco pequeno e leve serve também para atacar os diferentes fascismos que estão na rua, mas serve principalmente para atacar as diferentes democracias ( http://pt.indymedia.org/conteudo/newswire/6357 ), nas quais tu estás incluido.
Qualquer pessoa que tenha estado na manifestação viu tanto a fuga para a frente como os constantes apelos à inacção; dizes que houve uma demarcação... o que é isso? A sério, o que é uma demarcação? De todas as “demarcações” de que me consigo lembrar, uma “demarcação” refere-se a um acto político, uma manobra espectacular, um golpe de cintura. Lembro-me por exemplo da “demarcação” que Negri e os seus amigos tomaram nos anos 70/80, que consistia em assinar um pacto renunciando à luta que decorria contra o estado Italiano em troca de uma aministia, piorando a situação judicial de todos os que recusavam essa manobra, e que ganhou o nome de “dissociação” (ver introdução de Barbarians: disordered insurgence http://digitalelephant.blogspot.com/2010/08/barbarians-disordered-insurg... , ou And we’ll still be ready to storm the heavens another time: against amnesty http://theanarchistlibrary.org/HTML/Alfredo_M._Bonanno__And_We_Will_Stil... ); ou da “demarcação” que as Comissões de Utentes das diferentes auto-estradas teimam em publicitar de cada vez que mãos anónimas sabotam uma infraestrutura das portagens nas ex-SCUT; ou da “demarcação” de uma figura política / pública que o faz para ficar bem na fotografia. A sério, demarcação?!... e no final da manifestação? Isso é o quê, um ritual simbólico? De facto a política não é uma coisa única de partidos... Se queres mesmo usar essa expressão, parece-me que neste caso os fascistas foram demarcados logo no início, a soco e pontapé. Na mesma altura em que, sim, a frente da manifestação avançava apressadamente deixando para trás o conflito, e em que algumas pessoas tentavam puxar a cauda da manif também para a frente. Mas isso é alguma novidade para ti? Dei vários exemplos ao longo do texto, e podia ter dado mais: não só no 12 de Março, como toda a gente sabe, os fascistas participaram na manif, para vergonha de todos “nós”, sem qualquer resposta, como desta vez o mesmo iria acontecer caso alguns indivíduos não tivessem decidido o contrário. E é indiferente as posições da Plataforma, pois os momentos mais alegres são feitos de indivíduos e não de estruturas como ela. Mas diga-se, para a Plataforma tudo é provocação, o mundo inteiro se explica através da provocação, pois tudo o que não corresponde ao estipulado pela Plataforma está contra “o movimento”. A Plataforma é a legítima representante do “movimento”...
Relativamente às fugas para a frente, a CGTP, privilegiada interlocutora da Plataforma 15 Outubro, tem ficado conhecida por essa táctica (exemplos: na manif da NATO, numa manif no início de 2010 também na Av. da Liberdade e na própria manif da greve geral de 2011, todas situações em que quando se chega ao final, já está o aparelho CGTP’iano a arrumar a trouxa e a basar, tal não é o avanço). Mas por exemplo, e ainda no dia da greve geral de 2011, na manif que não era a da CGTP, quem não se lembra do passo acelerado da frente da manifestação (constituído pelas organizações da Plataforma) quando outros pararam frente aos Armazéns do Chiado, invandindo-o? Ou quando novamente parte da manifestação parou frente ao Minipreço/Caixa Geral de Depósitos, depois do Camões? Renato, estou farto de dar exemplos; tu conhece-los, mas crias uma imagem de que o que foi dito é mentira atacando com base nisso; crias um boneco de palha, um espantalho, e atacas esse espantalho. Outra falácia?
Quanto às assembleias populares, poderás encontrar aqui - http://pt.indymedia.org/conteudo/newswire/6200 - uma crítica que partilho inteiramente. Eu não “chego a questionar o direito a que a Plataforma organize assembleia populares” – a Plataforma tem todo o direito de as fazer. A lei e a constituição dão-lhe esse direito, a polícia assegura-o e os políticos aproveitam-no. Eu gostava mesmo era que não fosse capaz de as fazer, por serem atacadas ou desertadas, consideradas um instrumento de colocação da discussão em falsas perguntas que só podem ser replicadas com falsas respostas, e porque, numa situação de luta real em que se tenha conquistado a possibilidade de colocar outras perguntas, uma assembleia que pretende ser algo mais do que um local de conhecimento e partilha e se propõe ser um local de tomada de decisão imediatamente cria uma separação entre a decisão e a acção, entre os indivíduos que decidem e os que agem. Também isso é política, essa arte da separação http://zinelibrary.info/files/ten%20blows%20imposed.pdf . Não me venhas falar de “então como é que as pessoas podem tomar decisões?”. A vida tem inúmeras maneiras, encontra inúmeras formas; nas próprias lutas, possibilidades abrem-se quando antes não existiam... Não te vou dar ideia nenhuma para adaptares à tua luta pelo poder assembleário. Mas a criação de orgãos que ficcionam uma relação não-hierárquica e de igual para igual (como uma “assembleia popular”) não é o mesmo que viver uma relação assim.
Se antes se perguntava “qual a diferença entre umrepresentante de esquerda e um de direita? – Nenhuma, ambos são representantes”, hoje pode-se dizer “qual a diferença entre uma assembleia dos indignados e um comício da CGTP? – nenhuma, ambos são palco para políticos extra-partidários”. E não me entendas mal, o problema não é só quem sobe ao palco e tem os discursos mais entediantemente inflamados, mas a morte lenta de todos os outros, o processo de desumanização e alienação de todos os que nelas participam. O espectáculo não é só feito pelos seus actores, mas também pelos seus espectadores.
Queixas-te de que não aprofundo “o que fazer para o futuro” – pois, talvez esse seja mesmo o ponto. Contigo, com a Plataforma, com os Indignados (R) e com a ideologia cidadanista - http://www.macheteaa.org/search/label/Dibattito%20-%20Individui%20o%20ci... - não quero fazer nada no futuro, tal como nunca fiz nada no passado. A única coisa que quero relativamente a isso é que percam o papel de representantes, porta-vozes ou recuperadores que têm tido, da mesma forma que quero que esse saco dos indignados rompa finalmente, e não consigas nem tu nem ninguém canalizar o descontentamento e a revolta que temos e que tenta encontrar novas formas, novas palavras, novos ânimos para se expressar e comunicar. Acusas-me portanto de fazer uma coisa de que me orgulho e que estava explícito no “novos fascistas”. Parabéns pela perspicácia.
num barco pequeno e leve
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Comentários
Um auto à fé do indivíduo
Está visto que a Barca Pequena e Leve é um dos Quatro Cavaleiros Cruzados da Barca do Inferno e eu, claro, o Enforcado. Move-o a raiva à indignação organizada, tem políticas contra a política e a força da sua razão arrasa qualquer ideologia. Encontra forças na fé do indivíduo, entidade tão abstracta como divina, tem a mentira como arma e é dotado de uma dose indelével de cobardia. Uma verdadeira ode ao partido inteiro. Vejamos:
http://5dias.net/2012/02/01/um-auto-a-fe-do-individuo/
QUE MERDA!!!!
"Dia 21 de Janeiro de 2012, no decorrer de uma manifestação de protesto em Lisboa e depois das provocações policiais numa recente manifestação análoga também em Lisboa (http://www.youtube.com/watch?v=6u7v-bh6qDo&feature=youtu.be) surgiu uma nova tática provocatória, através de um grupo de nazi-fascistas, armados com very lights, com os quais atacaram a multidão que os pretendeu expulsar da manifestação."
Luiam o editorial do Indymedia!
Simples, claro, objetivo, falando na questão prioncipal: O ANTIFASCISMO POPULAR, A ATITUDE POLICIAL!
Na verdade todos estão a tentar tirar dividendos daquilo que é óbvio: a resistência popular está em marcha!!!
E DEIXEM OS ANARQUISTAS EM PAZ!!!!!!
(Não aqueles que vivem a olhar para o seu umbigo, em blogues pessoais...)
O
Simples, claro, objetivo, rumo à questão principal.
Não podia estar mais de acordo, pelo que não se percebe, repito, a publicação de artigos que tratam os diferentes sectores do protesto como polícias.
Cumps.
Numa acusação o “barco
Numa acusação o “barco leve...” parece ter razão: na sua necessidade de recuperação... de um simples comentário (o das partes pudendas). (Além de não ter a intuição de perceber que esse comentário se dirige a “dialogar” com quem parte para outro tipo de navegações...).
Onde estão os colhões e os ovários d@s insurreccionistas?
“Numa discussão destas, em que cada um parece não se importar com o que acontece, em que o discurso de ódio se sobrepõe à necessidade de clarificação de dúvidas naturais, a verdade não é o que mais interessa. todo o esforço vai para ganhar a razão perante uma plateia que se espera bem pensante.”
Convém lembrar esta frase nos poucos momentos em que neste espaço se poderia gerar alguma discussão capaz (crente crente) de criar situações. A maioria das vozes, quando não carregada do insulto por amadorismo, quer sempre esconder os pontos às costuras. “Todo o esforço vai para ganhar a razão”.
E o que acontece neste mundo, neste país, nesta cidade, não são 15 galfarros que se dizem fascistas virem manifestar-se democraticamente num “grande” cordão humanitário. Pois pode falar-se sobre o que aconteceu, sem dúvida, mas é um não-caso “político” para o que nos acontece nesta cidade, neste país, neste mundo. Quem agiu, agiu bem, na medida da sua espontaneidade e convicção. Mas discutir 15 galfarros? São eles que têm atacado os imigrantes? São eles que desancam todos os fins-de-semana nos bairros dos pretos? Que apanham não por serem pretos, mas por seres pretos pobres, explorados e oprimidos?
Porque, partilhando o sentimento do ex-anarca, existe um discurso espectacular com bafo a ódio, um discurso auto-referente e autocomplacente, de “demarcação” simbólica, vindo de várias pessoas que se agregam no ideário anarquista. Discurso em si um bocado irritante (como todos os tiques, estilos, modas, pelo lugar-comum, etc, etc.), mas sobretudo oco, inconsequente. Esse discurso transpira uma via insurreccionista no abstracto, no fogo-fátuo, no petardo multicolorido, na pantufada ao careca, na piromania de carrinhos de brincar, na fisga ao pardal, enfim, no carnaval. Esse carnaval serve obviamente como factor de agregação e de pertença, de demarcação de território. Nada de mal, não fosse carregar um auto-ilusório ilusionismo. Ou, (sem chamar à colacção quem não conheço) “tentar encontrar novas formas, novas palavras, novos ânimos para se expressar e comunicar”, trata-se desses indíviduos que à pedrada, à pantufada, à barricada, se juntam aos pretos quando estes apanham do que “acontece”: o fascismo real, o normal, o que vem dos democratas e da sua guarda? Troque-se depois “pretos”, por todos aqueles destituídos, espoliados, explorados, que no dia-a-dia continuam sem resposta, inclusive, sem a resposta dos insurreccionistas.
Muito mau
Pessoal,
Adorei o vosso texto.
Agora responder ao Renado em praça Pública (salvo erro é o dono do 5 dias, mas nem quero realmente saber) acho que é uma perca de tempo e esforço.
Nestas lides existem sempre opiniões diferentes. Eu próprio decidi não comentar mais este assunto, e não o estou a comentar como "assunto" mas sim como texto.
Penso que devemos respeitar minimamente a opinião dos outros e ter uma mente aberta para fazer uma das duas coisas: saber ver que a pessoa está errada e tentar encaminha-la, ou perceber que a pessoa acredita no que diz e respeitarmos a sua posição.
Escrever um artigo, por muito certo ou errado que esteja, só faz enfraquecer a posição da Indymedia. Se vocês tinham a certeza, mantinham-se com ela.
Rui Cruz
Responder em praça pública é melhor do que em salões privados
Rui Cruz, o 5dias não tem chefes, tão pouco um escriba que assine Renado, e tudo o que os seus autores entendam se debate, na praça que bem entendam.
Em todos há uma coisa em comum. Quando debatem, na praça que escolheram, não repetem palmas ou vaias à intenção. Acrescentam. Não limitam o seu comentário a dizer que não comentam. Comentam.
Por último, o debate faz-se de troca de dúvidas, não da afirmação de certezas, em tantos casos, tão pouco consolidadas.
rui, este texto não é do
rui,
este texto não é do coletivo editorial do indymedia mas tão somente de quem assina como "num barco pequeno e leve".
se leres http://pt.indymedia.org/conteudo/politica perceberás que qualquer pessoa pode publicar no indymedia sem qualquer necessidade de aprovação.
pobre
na linha do artigo http://pt.indymedia.org/conteudo/newswire/6357, este novo post (tal como o que dá origem a este diálogo - http://pt.indymedia.org/conteudo/newswire/6544) é ressabiado e até parece nem precisar da realidade para a analisar.
o sectarismo dos 1% iluminados, que não querem acção conjunta com gente que tenha as mãos sujas de alguma coisa que não seja um determinado anarquismo (bem definido, onde só cabem os puros e os que recusam ver que há mundo á sua volta)
versus
o sectarismo de quem se considera vanguarda na posse de mais informação e mais tempo para reflectir sobre o real.
Numa discussão destas, em que cada um parece não se importar com o que acontece, em que o discurso de ódio se sobrepõe à necessidade de clarificação de dúvidas naturais, a verdade não é o que mais interessa. todo o esforço vai para ganhar a razão perante uma plateia que se espera bem pensante.
Renato... a tua capacidade eucalíptica, de, pela tua vontade e crença em sabedoria superio, secares tudo à tua volta, vai acabar por te deixar sozinho. Para mim, é uma pena, porque te acho demasiado empenhado na construção dum mundo novo para achar que tens agendas escondidas
anarca (ou não): o teu purismo, essa outra forma de ser vanguardista e achar que todo o planeta está completamente errado, vai-te deixar a lutar sem qualquer vislumbre de apoio popular. Para mim é uma pena, porque uma sociedade sem classes é o futuro mais risonho que posso antever para a humanidade (mas esse "sem classes2 implica que ninguém se sinta superior a ninguém e os anarquistas - alguns, pelo menos - têm essa mania de se acharem superiores aos outros combatentes e essa mania transpira de forma bem sentida nos dois textos de que falo acima
http://pt.indymedia.org/conteudo/newswire/6357,
e
http://pt.indymedia.org/conteudo/newswire/6544
Respeito pelos eucaliptos
Atenção às mitificações arbóreas. O eucalipto é uma árvore de grande porte, com raízes estruturantes, de aroma refrescante, calmante e com propriedades anti-inflamatórias, que só secam a terra à sua volta nos locais onde nunca deveriam ter sido plantadas. A sua exuberância em locais húmidos, como aqueles de onde é originária, permite não só que os solos à sua volta se regulem como garantem uma boa dose de sombra e abrigo a variadíssimas espécies animais.
Estou certo que, face à critica que me dirige, que consegue encontrar melhor paralelo.
De resto, bom comentário.
Cumps.
Porque tantos problemas com a
Porque tantos problemas com a democracia? Ate permite fazer carreiras a fingir que se e contra ela e no fim há sempre um otario que te faz uma estátua.