“No Uruguai existe uma "tradição" anarquista"- ENTREVISTA

“No Uruguai existe uma "tradição" anarquista”

[A anarquista Mix, do coletivo Ativismo ABC, de Santo André (SP), esteve recentemente em Montevidéu, no Uruguai. Na entrevista abaixo ela conta um pouco desta viagem.]

Agência de Notícias Anarquistas > E aí, como foi sua passagem pela capital do Uruguai, Montevidéu? Valeu?

Mix < Foi um dos melhores lugares que conheci, que pude estar. Por muitas razões: o lugar, as pessoas que conheci e que convivi os 12 dias que fiquei por ali, os espaços, os bairros, a cidade...

ANA > E que trabalho, projeto, chamou mais a sua atenção?

Mix < Na realidade muita coisa me chamou a atenção, mas principalmente a história do anarquismo no Uruguai, a história atual do anarquismo lá. Coisas que não conhecia ou que pouco sabia. Existem muitos espaços anarquistas, rádios comunitárias, ateneus, bibliotecas, cooperativas, indivíduos e um ambiente de respeito das pessoas em relação aos anarquistas. Tem uma ação que me chamou muito a atenção: lá eles organizam uma Marcha do 1° de Maio, uma marcha de trabalhadores passando por bairros historicamente operários como La Teja e Cerro até o centro da cidade, com forte adesão de outras pessoas que não são se afirmam anarquistas, mas lutam por uma vida melhor. Existe também o pessoal da Biblioteca Anarquista Del Cerro que tem uma banquinha numa feira com materiais de divulgação anarquista...

ANA > Você poderia comentar algum projeto?

Mix < Como disse anteriormente têm muitas coisas lá, mas posso falar da Biblioteca Anarquista del Cerro, da Federação Anarquista Uruguaya (FAU) e do grupo de mulheres chamadas Las Dicidoras que foram as pessoas/grupos que estive bem mais próxima, que convivi mais, mas existem os Ateneus Herbert Nieto e Del Cerro, El Galpón de Corrales e a Biblioteca Luce Fabbri, Comunidad Del Sur, foram pessoas/projetos que gostei muito de ter conhecido, mas o pouco tempo não me deixou ficar mais nestes espaços. Fiz questão de tentar conhecer tudo o que podia, dentro do tempo que ficaria lá. Além de outras pessoas que conheci que tem ações mais individuais que são muito importantes também.

ANA > E percebeu diversas correntes por lá?

Mix < Não sei se diversas correntes, mas diversos grupos, com atuações em diversos lugares, mas que em muitos momentos realizam coisas juntos, ou alguma atividade, algum debate, algum grande evento ou encontro e acho que isso é mais importante que as correntes que se seguem.

ANA > E a presença das mulheres...

Mix < Existe um grupo de mulheres feministas chamado Las Dicidoras, elas estão pensando não só questões feministas, como o aborto, mas também questões sociais. No geral, existe uma participação positiva de mulheres nos grupos.

ANA > E no que diz respeito às publicações?

Mix < Nossa, tem muita coisa sim, muita publicação: revistas, periódicos, livros. Todos os grupos acima citados tem publicações próprias: Rojo y Negro, Tierra y Tempestad, Revista Alter, a Gráfica da FAU com seus livros e tudo mais!

ANA > Na sua opinião o anarquismo em Montevidéu está mais avançado que em São Paulo, na capital e região metropolitana?

Mix < Bem, para mim é complicado dizer isto, porque são processos histórico-sociais diferentes. No Uruguai existe uma "tradição" anarquista, tradição no sentido de desde seu início o anarquismo, quer dizer, os anarquistas sempre tiveram uma influência muito forte junto a população, não houve um período de um forte "desaparecimento" do anarquismo. Ao contrário do Brasil. Junto a isso, existe a questão territorial e populacional que difere muito de um país a outro.

Por isso tudo é complicado pensar em analisar as coisas dessa forma, mas é muito incrível o que acontece por lá.

Acho que São Paulo teve uma história muito rica do anarquismo, mas tivemos um período de baixa, onde sempre houveram "gritos" de resistência. Nos dias atuais tem muita coisa acontecendo, e estamos (re)construindo coisas novas, recuperando coisas velhas, mas importantes e vamos tentando fazer as coisas em conjunto, separados, na mesma sintonia, depende de grupo para grupo.

Com altos e baixos, sou otimista em relação ao anarquismo, porque creio que é somente através dele que poderemos chegar em numa sociedade justa para homens e mulheres e natureza...

Gosto muito dessa passagem do Eduardo Galeano: “Também nos anunciam outro mundo possível as vozes antigas que nos falam de comunidade. A comunidade, o modo comunitário de produção e de vida, é a mais remota tradição das Américas, a mais americana de todas: pertence aos primeiros tempos e as primeiras pessoas, mas também pertence aos tempos que vêm e pressentem um Novo Mundo. Porque nada existe menos estrangeiro que o socialismo nessas terras nossas. Estrangeiro é, na verdade, o capitalismo”. [Eduardo Galeano - Livro dos Abraços]

ANA > E algum projeto que você viu lá te animou a reproduzir no coletivo em que atuas, no Ativismo ABC?

Mix < Bastante coisa me animou, mas por hora pensamos na cooperativa de consumo e já realizamos nossa primeira compra neste mês de fevereiro, onde estamos pretendendo comprar os alimentos direto dos distribuidores e outras coisas direto de quem produz (movimentos sociais). Estamos pensando em fazer uma grande quantidade do nosso jornal "El Saleroso" e em montar uma editora também, já estamos até revisando o livro que estamos querendo lançar... Muita coisa legal e boa trouxe de lá...

www.ativismoabc.org

agência de notícias anarquistas-ana

na poça barrenta
alegres borboletas
fazem fuxicos.

Rubens Nunes