Caso Es.col.A: Em solidariedade ativa, mas crítica

A EMANCIPAÇÃO SOCIAL, A AUTOGESTÃO; A AUTONOMIA E A LIBERDADE NÃO SE NEGOCIAM

Para além da triste notícia do desalojo e das vomitivas imagens com os cães de uniforme a invadir o espaço Es.col.a, no Porto, na 5ª feira, dia 19 de Abril, a argumentação dos/as próprios/as ocupas causo-nos uma dupla amargura. As cartas da Es.col.A, datadas de 17 de Maio de 2011 e de 17 de Abril de 2012, refletem bem as ilusões cidadãs e democráticas dos seus/as participantes e do seu espírito de negociação com as autoridades. Nos seguintes extratos dessas cartas observa-se bem isso:

[17 de mayo de 2011]
“[...]Para conhecimento do senhor presidente da Câmara Municipal do Porto e demais portuenses aqui fica a exposição dos representantes da Es.Col.A. na assembleia municipal.

Tendo em conta que a Constituição Portuguesa garante, através do Articulo 52º, a legitimidade da acção popular para assegurar a defesa dos bens dol Estado;

Tendo em conta que no seu Artículo 85º, a Constituição Portuguesa preconiza que o Estado apoie as experiências de autogestão;

Tendo em conta que o direito da acção popular, nos casos e términos previstos na lei, é conferido a todos , pessoalmente ou através de associações de defesa dos interesses em causa, sobretudo para assegurar a defesa dos bens do Estado.

Tendo em conta que, na letra e no espírio da lei, o Estado deve apoiar as experiências viáveis de autogestão.[...]“

[17 de abril de 2012]
“[...] A única relação formal entre a Câmara Municipal do Porto e a Es.Col.A. foi um contrato promessa (uma promessa de contrato), no qual nos comprometíamos a deixar o nosso carácter informal, transformando-nos em associação, no prazo limite de 30 días úteis e onde as autoridades se comprometiam a nos enviar, dentro dos 10 dias subsequentes a proposta de contrato. A Es.Col.A. cumpriu a sua parte do acordo, dentro do tempo previsto, e fizemos saber à autarquia que a associação se tinha já constituído. A Câmara Municipal do Porto não cumpriu a sua parte.[...]“

A EMANCIPAÇÃO SOCIAL, A AUTOGESTÃO; A AUTONOMIA E A LIBERDADE NÃO SE NEGOCIAM, nem se constitucionalizam democraticamente. A lei do Estado foi, é e será sempre inimiga de todos estes valores. E o que aconteceu em todo este processo prova isso à saciedade!

Em solidariedade ativa, mas crítica, esperamos que a reflexão que deverá sempre acompanhar qualquer ação, nos torne a todos/as mais fortes, mais combativos/as.

À LUT(A)!

DESALOJO OCUPAÇÃO!

Alguns e algumas anarquistas

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Comentários

a discussão a ter

esta é uma discusssão com algum tempo já...

deve um anarquista deixar o B. entrar no Es.Col.A depois dele dizer que cozinhar é coisa de gajas? Não, claro que não... um anarquista não aceita sexistas nos seus espaços. Ou... sim, claro que sim e, daqui a um ano, vais ver que é o próprio B. a cozinhar lá

deve um anarquista ouvir as populações onde se insere e tentar consensos com gente que nunca ouviu falar de resolver problemas sem ser através dos canais institucionais? Não, claro que não, que um anarquista não negoceia com instituições. Ou... sim, claro que sim e, daqui a um ano, essas pessoas não só odeiam essa instituição como também já descobriram que há formas não institucionais de resolverem as coisas?

pela forma manipulatória como ponho as questões, transparece a minha posição de que, na maioria das vezes, o Es.Col.A decidiu muito bem. Não é um processo isento de erros. Mas é uma experiência que os puristas do anarquismo nunca terão. E, para mim, tem sido a mais enriquecedora da minha vida.

Parece-me que nos estamos a

Parece-me que nos estamos a desviar um bocado da questão. Mudar as pessoas, como o sexista que acha que cozinhar é «coisa de mulheres», requer algo mais que boa vontade e inclusão, e pensar o contrário é ingenuidade.

Canais institucionais? Pelo que conheço das pessoas comuns, vindo eu próprio do seu seio, elas não estão «habituadas a utilizar os canais institucionais», o hábito delas é mais resignarem-se à sua sorte e não fazerem nada para a alterar. Quando as vemos determinadas a agir, essa acção é habitualmente, no verdadeiro sentido do termo, anárquica, ou seja, à margem e em confronto com instituições que elas sabem perfeitamente, sem carecerem de ler Marx e Bakunine, que não lhes pertencem. O institucional é sobretudo o recurso de um certo activismo, não do povo.

Além disso, mesmo considerações dessa ordem não justificam o recurso à apologética dos «direitos democráticos consagrados na constituição» que os autores do post original citam. Empregá-los não é respeitar uma vontade expressa pelas pessoas do bairro em nenhuma assembleia e antes revela certas opções ideológicas e um certo discurso que se quer ter perante a opinião pública, posto que qualquer pessoa com dois dedos de testa percebia imediatamente que a intenção da CMP era meter-vos na rua tão cedo quanto possível e não era metendo um constitucionalista à frente do corpo de intervenção que se ia parar o despejo. Não insultem a inteligência das pessoas, ok?

Quanto à própria questão de negociar ou deixar de negociar e falando em abstracto, existindo um Estado não podemos agir como se ele não estivesse lá. Há sapos que vamos ter que engolir e que na realidade cada um de nós passa a vida a engolir, ponto final. Os gajos estavam mesmo dispostos a negociar e a ceder-vos o espaço? Então ok, fizessem a associação e assinassem o acordo, que não ia ser eu a criticar isso!

LÁ ESTAREMOS NO PORTO NO 25 DE ABRIL PARA VOS AJUDAR NA (RE)OCU

"Mas é uma experiência que os puristas do anarquismo nunca terão. E, para mim, tem sido a mais enriquecedora da minha vida"

Se calhar foram o conjunto de experiências que cada um teve que levaram a esta convicção...enfim...

....

A reflexão é fundamental ser feita e sinto-me feliz por perceber que está já a ser feita...

....

E LÁ ESTAREMOS NO PORTO NO 25 DE ABRIL PARA VOS AJUDAR NA (RE)OCUPAÇÃO!

Abr(A)ço de Lut(A)!

Também tens o lado do sexista

Também tens o lado do sexista que entra no espaço e passado um ano tenta violar uma rapariga... E também tens o caso do anarquista que negoceia com meios institucionais que depois se aproveitam para fazer campanha com isso... Entre muitas coisas que podem acontecer. Respeito estas questões colocadas, e imagino que a experiência da Es.Col.A tenha sido desmistificadora, mas chegar-se ao ponto de ver tudo como se fosse a preto e branco, sem que existam as zonas cinzentas, parece-me bastante incorrecto e quiçá até ingénuo. Para além disso o anarquismo é uma corrente não política e acima de tudo individualista, que assenta numa ética pessoal. Daí que a rejeição a negociar com instituições seja, acima de tudo, um acto de dignidade que deve ser respeitado ao máximo, porque é também um acto de liberdade individual. Virem aqui insultar os "puristas" anarquistas porque tomam essa opção por dignidade pessoal, parece-me de bastante mau gosto. Veja-se o exemplo da Guerra Civil de Espanha onde os "puristas" anarquistas foram aqueles deram sempre a cara à luta por uma verdadeira revolução social, enquanto os "não puristas" anarquistas se tornaram parte do governo da República com as consequências que isso teve. E este tipo de situações estende-se ad nauseum através da história. Não me parece que a crítica seja desreitadora, bem pelo contrário, é somente uma crítica. Se alguém se sente ofendida por ela é porque não tem a consciência limpa.

Só mais uma achega. Enquanto

Só mais uma achega. Enquanto alguém que se identifica com o anarquismo, sempre aprendi que os meios não justificam os fins, ou seja, o anarquista não se preocupa com o resultado, mas com o processo, não se preocupa com o depois, mas com o agora. Os meios são eles próprios os fins.

Deixo apenas uma achega

Deixo apenas uma achega porque concordo com o essencial deste comentário.

Não se trata de pureza no anarquismo mas apenas de uma opção estratégica. Considero-me tão anarquista como qualquer outro que suscreva o conteúdo do post e penso que é importante afirmar isto para não se correr o risco de alguém menos informado ficar a pensar que há anarquistas mais verdadeiros que outros, o que pode ser confundido com firmeza na prossecução de uma política radical em oposição a relativismo de princípios e métodos.

É preciso ver que não estamos a falar de um colectivo estritamente anarquista, pelo que a argumentação do post nem sequer aborda o ponto principal da questão.

cumps

Povo contra povo, irmão

Povo contra povo, irmão contra irmão...
Ainda perdidos em diferenças pessoais?...

BOOOOAA!!!

os anarquistas que negam a

os anarquistas que negam a possibilidade de uma negociação com o inimigo que continuem então a seguir a sua linha. Os seus resultados são inequívocos.

Tendo em conta os nossos

Tendo em conta os nossos objectivos, negociar com o inimigo é apenas um eufemismo para a derrota. O máximo que podemos conseguir nessas circunstâncias é sermos bem batidos, ou seja, OBRIGAR O INIMIGO a vir negociar connosco, em vez de sermos NÓS a tentar negociar com ele.

Pode ser que ainda venha a acontecer isso. Sejam persistentes, reocupem, e boa sorte dia 25, ainda que considere que a pior coisa que vocês podiam ter feito era mesma anunciar a ocupação com antecedência.

E não podiam ter escolhido uma data menos democrático-demagógica que o 25 de Abril?!?

O único pano imaculado é o

O único pano imaculado é o que nunca foi à mesa. A inserção social significa fazer concessões, em maior ou menor grau, e a esse nível cada um sabe que princípios lhes são caros, e do que está ou não está disposto a abdicar. Quem não estiver disposto a arriscar-se nesse malabarismo complexo e potencialmente escorregadio, que se fique pela propaganda especifista se quiser fazer algo de útil.

Nunca fui à Es.Col.A, nem sequer conheço as pessoas que estão por detrás daquilo, nem sequer sei se são libertárias ou deixam de o ser, pela que a minha capacidade de tecer juízos acerca daquele projecto é muito limitada, assumo-o.

Argumentos legalistas, como os citados acima, repulsam-me, evidentemente. Sou um anarquista, e essa é a minha forma de ver as coisas. Cada vez que oiço ou leio alguém a afirmar que se deve ou não deve fazer isto ou aquilo «porque está na lei», só me apetece perguntar a essa pessoa o que faria se a lei não consagrasse o direito X ou a proibição Y. Assim é com os ecologistas de todas as cores e com os nossos patrões sindicais, para citar apenas dois exemplos dessa maneira de agir e fazer as coisas.

Um activista social, expressão que detesto mas que emprego por ser de significado claro, não é, nem um jurisconsulto, nem um fiscal do Estado, mas alguém que procura transformar a sociedade e que para isso tem que entrar, em maior ou menor grau, em confronto com as relações de poder existentes. A lei não lhe pode ser de grande uso e, não raro, aqueles parágrafozinhos de legislação que a luta popular obrigou os nossos legisladores a inserirem no Código, serão revogados ou convertidos em letra morta tão cedo quanto possível.

A lei só constitui um recurso efectivo para a canalha que a escreve. Para todos os outros, existem lindos direitos democráticos, consagradas na nossa magnífica e avançadíssima Constituição onde, ainda há uns anos, se falava no «caminho português para a construção do socialismo», haviam planos económicos de arregalar o olho e a Saúde e o Ensino deviam ser, se bem se lembram «tendencialmente gratuitos».

Uma última consideração: as pessoas da Fontinha que foram à Es.Col.A e que assistiram a tudo o que foi acontecendo hão-de sair de lá mais anti-autoritárias do que quando entraram. Só por isso valeu a pena.

o percurso de cada qual...MAS BRINCAMOS?????

O percurso de cada qual faz-se de experiência e de lutas..e das lições a tirar delas!
MAS ATENÇÃO!

A montanha pariu um rato?
Quem visse a Es.col.A em Paris com uma grande faixa de AUTOGESTÃO numa manif de anarquistas e outros anti-autoritários logo no início do processo tem o DIREITO DE QUESTIONAR se NÂO QUISERAM METER O CARRO À FRENTE DOS BOIS!"

Brincamos???????????????????????

Como já disse, nem sei se

Como já disse, nem sei se estão anarquistas à frente da Es.Col.A, e os franceses deverão saber ainda menos do que eu. Portanto, são capazes de estar a empolar a coisa.

Agora: apoia-se, ou não se apoia? Os autores do texto inicial pelos vistos apoiam. Com reservas, mas apoiam. Também é o meu caso.

toda a gente apoia!

anti-autoritária...

Apoia-se como?

quem levava a faixa eram portugueses...

da Es.col.A

Isto do pessoal chamar

Isto do pessoal chamar fascista aos outros (que por vezes estão bem perto) por quase nada já começa a enjoar. É um tique tipicamente esquerdista que foi levado ao extremo no pós-25 de Abril quando se queria denegrir alguém, e que hoje é utilizado de forma acefala em manifestações, quando a policia carrega, contra os governantes, eleitos pelo voto, ou contras as pessoas que nos estão próximas, quando a crítica não agrada. A crítica aqui não é descabida, ainda que possa ser descontextualizada, e não me parece que por se fazer uma crítica de uma metodologia se seja fascista. Acho que devemos amadurecer um pouco as ideias para rebater as críticas e não disparar logo desta forma com o "fascista" para deixar os outros por terra. E se a policia nos bate e o governo nos trama, se calhar é mesmo porque são mesmo democratas e não fascistas.

o verdadeiro anarquista

tou farto destes detentores da verdade anarquista que constroem a sua utopia virados de costas para a maioria das pessoas e dentro de 4 paredes onde só cabem os que pensam exactamente da mesma forma.
se estivessem estado na fontinha no primeiro despejo e percebessem, em assembleias quase diárias, que a maioria dos habitantes do bairro queriam negociar com a CMP por considerarem fundamental o regresso ao espaço, que faziam? viravam-lhes mais uma vez as costas porque o verdadeiro anarquista não negoceia com a autoridade?
vocês, com essas atitudes de pureza, tornam-se mais fascistas que o fascista!

um voluntário do projecto es.col.a.

dá a cara!

e diz isso às pessoas, enquanto te limitas a apontar o dedo ao Rio Rio, ao partido no poder, à Câmara, a ameaçar com os resultados das próximas eleições autárquicas...nada tenho a ver com isso nem outros e outras anarquistas...somos contra eleições, contra TODOS OS PARTIDOS, contra CEDÊNCIAS, e estamos na rua a defender a Es.col.A mas NÂO A MERDA QUE FIZERAM!

falemos a sério!

a arrogância destas palavras só prova que aventuras de "esquerdista" só dão nesta merda!

concordo

concordo

Era um gajo tão

Era um gajo tão revolucionário, tão revolucionário, mas tão revolucionário, que torpedeava tudo o que os outros faziam por nunca lhe parecer revolucionário o suficiente.

só prova que a reflexão ainda não foi feita!

isto é sério demais e esses comentários só provam imaturidade!

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