(Es.Col.A) Who the fuck is Catarina Martins?

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Já muito se escreveu sobre o despejo do Es.Col.A da Fontinha. Já toda a gente conhece as mentiras da Câmara, já todos sabemos da desproporção e da violência da intervenção policial, sobre os sentimentos de quem participou nos protestos. Podia acrescentar a solidariedade e, mais do que isso, o companheirismo entre todos os resistentes, o orgulho de ver a malta do bairro na linha da frente do confronto com os cordões policiais e da manif que ocupou, desobedientemente, ruas, praças e as entradas dum comando policial e da Câmara Municipal. Mas todas essas coisas já terão sido antevistas, pelo menos pelos mais atentos, nas entrelinhas das dezenas (deveria dizer centenas?) de textos que se seguiram ao despejo.

O que isto significa em termos de capacidade de luta de cada uma das pessoas que lá esteve e de todos juntos é coisa para ver daqui para a frente, se bem que já tenha havido um vislumbre, no dia a seguir ao despejo, quando, reunidos no Largo da Fontinha, decidimos voltar a ocupar a escola novamente abandonada. Foi sem medo que se marcou uma nova data, foi sem qualquer tipo de receio que, ao cair da noite dessa sexta-feira, cerca de duas centenas de pessoas expulsaram os policias da Rua da Fábrica Social e permitiram que uma dúzia voltasse a estar do lado de dentro. De fora, sobrou um carro da polícia com os pneus em baixo e um vidro partido. Ao fim de 24 horas de estado de sítio, a Fontinha e, principalmente, a Rua da Fábrica Social voltavam, ainda que por breves momentos, à normalidade. Sem polícia e com gente a circular dentro e fora da antiga escola primária. Ao querer destruir-nos, só nos fortaleceram. Um clássico que parecem não entender.

Mas há uma coisa de que ninguém ainda falou, pelo menos que eu tenha notado. Umas pessoas por não terem achado tão relevante como eu o acho, outras por desinformação, outras ainda por ir contra a sua agenda muito particular. Muita gente por não ter sequer reparado, tanta era a multidão e tão localizada foi a cena. A determinada altura, já se tinha dado a volta à cidade, circulando, sem permissões ou autorizações, por onde nos apeteceu, já se tinha tentado furar o cordão policial que protegia os que estavam a destruir-nos o Es.Col.A, Catarina Martins é apresentada. Não fala ela própria. É apresentada pelo seu staff. Um staff impressionante, deve dizer-se, onde cabia toda a fina flor do BE do burgo.

Aqui, convém rebobinar um pouco o filme e lembrar que a deputada do Bloco de Esquerda, apesar de estar na Assembleia da República pelo círculo do Porto, nunca tinha aparecido por aqueles lados. Tal como a maioria dos seus apaniguados presentes, aliás. Diz que andou por lá nos dias em que a escola primária do Alto da Fontinha ainda funcionava. Mas já quase ninguém se lembra desses tempos, quanto mais dela. Foi, por isso, sem surpresa que, quando a apresentaram às pessoas que resistiam na rua, a pergunta a que um dos jovens moradores do bairro acabou por dar voz andasse na cabeça da grande maioria: mas... quem é a Catarina Martins? A surpresa voltou quando, novamente, a resposta, ao invés de vir da própria, saiu da boca doutra pessoa.

Há que dizer, em prol da verdade, que Catarina já tinha tentado ir ao Es.Col.A. Não em nome individual, como todas as pessoas que lá aparecem e a quem ninguém pergunta se são de algum partido, mas em nome do seu, integrando a visita numas jornadas quaisquer sobre cultura que, esperava, tivesse cobertura dos média. Simplificando, a senhora queria aparecer no Es.Col.A, com o seu staff e um batalhão de jornalistas, em visita “oficial” do bloco. Isto, no seguimento duma das últimas ameaças de despejo. Se se lembrasse da negativa e de uma ou outra reacção de camaradas de partido, perceberia que aquilo que o BE insiste em apresentar como um apoio é visto, no Es.Col.A e mesmo por simpatizantes do Bloco que por lá andam sem cartão de sócio, como aproveitamento político.

Voltando ao dia do despejo, o que quereria ela? Saber da situação dos companheiros detidos? Dizer ao seu amigo advogado, também ele deputado, mas de grau inferior, porque da Assembleia Municipal, para fazer um trabalhinho pro bono? Talvez não soubesse que ele já se tinha oferecido, aquando do primeiro despejo... é bem possível que não tenha conhecimento que esse senhor, nas alturas em que foi preciso e pedido mas em que não havia circo mediático, acabou por não prestar apoio nenhum. Estaria interessada em saber se os feridos estavam bem? Se havia alguma coisa que a malta que bloqueava os caminhos que a polícia pretendia percorrer queria que fosse transmitida ao ministro que ela tantas vezes vê no seu local de trabalho?

Nada disso. Pretendia, utilizado uma prerrogativa que é dada aos deputados, ser a primeira pessoa a ir ao Es.Col.A depois do despejo e desejava também que isso fosse devidamente documentado por jornalistas. Não a cidadã Catarina, mas a deputada. A querer utilizar benesses que lhe são dadas pela mesma Lei que nos tinha tirado a escola. Uma ocupação é um acto de rebeldia. Que é levado a cabo não por delinquentes, mas por pessoas para quem a vida está antes da lei. Utilizar um favor especial que esta (a mesma que nos roubou a escola e a mesma que deve ser precedida pela vida) lhe concede por ser deputada, num meio de gente pobre a quem não cai bem que haja favores especiais para os políticos, é não perceber nada sobre o povo que lhe pagam para representar. Isso, dirão, é normal. É. Mas não deixa de ser dramático.

E porque queria, afinal, ir lá dentro? Para ver em que estado estava o edifício. Como, se não sabes como estava antes do despejo? ah... bem.... e se também fosse alguém do bairro, ou do projecto? Um pequeno parêntesis para deixar claro que, apesar de se utilizar aqui um discurso directo, toda esta conversa foi tida entre populares e bloquistas sem a intervenção da própria Catarina Martins. Ir alguém do bairro também... não se tinham lembrado disso antes, lembraram-se ali, é normal, ninguém consegue pensar em tudo. Também normal é que aquilo em que se pensa mais é aquilo que mais nos motiva e, nesse sentido, saber que o Bloco pensou apenas em levar para dentro do Es.Col.A a sua deputada com jornalistas e sem habitantes ou voluntários diz bem das suas motivações. Sempre ia alguém, é melhor do que não ir ninguém... Não! É melhor não ir ninguém do que ir alguém que nunca lá foi. Os jornalistas sempre podiam fotografar, depois vocês viam como estão as coisas... Não! Ou vamos nós ou não tem lógica ir ninguém.

A discussão mantinha-se, algures entre a candura hipócrita e a agressividade paranóica, dependendo do lado de que se olhava para a coisa, até que, finalmente, Catarina falou. Afinal, não podia levar jornalistas, há malta que não quer que eu vá, já não tem lógica, acabou. Os apaniguados calaram-se, pelos outros a conversa nem tinha começado e lá voltamos a focar-nos no importante. Senhor comandante, como é? Queremos ir à escola buscar cenas nossas e ver o que estão a fazer! Ok... podem passar dois a dois, vejam lá quem quer ir e organizem isso. Senhora deputada, nós sabemos tratar de nós. E sem prerrogativas especiais. E confiamos mais nas palavras de quem lá vai do que nas fotos dos jornalistas que não sabem para onde olhar a ver se está tudo como dantes.

A coisa, a ficar por aqui, só seria grave em cérebros em que a raiva e o amor partilham neurónios e se misturam nos dias de luta a sério, quando ela é forte, sincera e concreta. Para as outras pessoas, não passaria de paranóia de anarquistas que vêem golpes políticos em tudo o que mexe e tenha conotação partidária. Mas a coisa não ficou por aqui. O plano A tradicional apareceu como plano B: estar no sítio em que acontecem coisas giras, levar umas caras conhecidas dos média, esperar que as câmaras se aproximem e que as pessoas, em casa, tirem as conclusões que lhes convêm. Quando isso aconteceu, Catarina não teve pejo em dizer que se recusou a ir porque a polícia não deixava que os jornalistas a acompanhassem. Não referiu que a esmagadora maioria das pessoas que opinaram sobre essa possibilidade estava contra. Não disse que, mesmo que fosse possível ir acompanhada de jornalistas, isso nunca aconteceria.

Em segundos, transformou uma derrota numa vitória pela estratégia da vitimização e da defesa do direito à informação. Não percebeu o meio em que estava, porque não compreende a cultura de bairro nem a de luta rua. E saiu derrotada. Mas safou-se bem perante as câmaras. E é por e para isso que é eleita. Sinto um privilégio enorme em estar de braço dado com gente que até tem cartão de sócio do bloco e em confiar abertamente em vários simpatizantes. Pessoas que entendem os locais onde se inserem e que, sem prescindirem de nada que lhes violente os princípios nem forçarem nada que violente os dos outros, conseguem encontrar consensos onde se sintam confortáveis. Que percebem o conceito de apartidarismo e garantem que não é necessariamente anti-partidário. Que acreditam em lutar aqui e agora, com as pessoas mais do que com os média e que transformar é mais do que retocar. Mas, deixem-me dizê-lo, e sei que deixam, apesar de preferirem que o faça menos publicamente (encarem a coisa como “pode ser que eles aprendam”): quanto mais conheço o “vosso” partido, menos gosto dele.

Comentários

Em primeiro lugar quero dizer

Em primeiro lugar quero dizer que não sou do BE.
No entanto, antes de comentar alguma coisa que seja sobre o grande escritor MS gostava de saber se ele faz alguma distinção entre os termos "Aproveitamento Político" e "Política"! É que provavelmente para ele é tudo a mesma coisa e os políticos dos partidos são todos iguais! Assim sendo, nem vale a pena discutir! Bota abaixo tudo e todos!
Mas, já agora, que eu me lembre, o PSR sempre foi a favor das casas ocupadas e até tinha documentos nesse sentido. Lembro-me que em 1900 e troca o passo, no segundo concerto do Gabriel o Pensador em Portugal (segundo álbum) apanhei um man do PSR a distribuir uns panfletos sobre a okupação de casas. E, já agora, os partidos de esquerda sempre defenderam a ocupação de casas e terrenos! Até o João Soares achava piada às casa okupadas em lisboa! :)

BARULHOS

A MALTA TEM TIDO PROBLEMAS POR CAUSA DO BARULHO BOESG/CCL/FONTINHA, ETC.
SABEM QUE NESTES SITIOS EXISTE GENTE IDOSA QUE NÃO SE COMPADECE COM BARULHOS/CONCERTOS. ETC ATÉ TARDE E ISSO JOGA A FAVOR DE QUEM QUER POR O PESSOAL A ANDAR.
NUNCA O PESSOAL ANARQUISTA DO ANTIGAMENTE FEZ CONCERTOS BARULHENTOS QUE INCOMODAM AS PESSOAS.

Vê-se que frequentas esses

Vê-se que frequentas esses sitios... principalmente nos dias de concertos na boesg e ccl... hás-de-me dizer em que dimensão entras para ver esses concertos

Não se deve cair no mesmo erro político dos políticos que erram

Não querendo fazer aqui o papel de advogado do diabo acho que há um erro na análise apresentada neste texto. Não tenho nenhuma simpatia especial pela Catarina Martins nem pelo posicionamento indeciso do BE em relação a este tipo de iniciativas mas há algo que não posso deixar de dizer: o aproveitamento político é algo inerente ao sistema vigente e não só. Também faz parte da estratégia radical de se fazer politica. Não defendendo a hipocrisia e a instrumentalização. Condeno este tipo de atitudes venham elas donde vierem. Há porém algo que provavelmente a comunidade da Fontinha entenderá melhor que alguns activistas. A visibilidade é muito importante e nesta altura é até crucial. E porque não, perante uma situação de tentativa de instrumentalização política não reagir da mesma forma e exigir ao BE nacional um posicionamento público a favor deste tipo de iniciativas. Desta forma, ficaria comprometido e encostado às cordas seria forçado a apoiar as iniciativas semelhantes que possam vir a acontecer um pouco por todo o país criando discussões públicas e levando estes debates para o espaço mediático onde se tem depreendido que a opinião pública dá mais valor à utilidade do que à propriedade. Quais são os nossos objectivos como activistas? É criar estas discussões à escala global ou criar feudos sectários onde as nossas ideias libertárias tenham um eco mudo e que fiquem barradas pelos limites dos espaços comunitários. Companheiro, sejamos inteligentes. Usemos as armas deles a nosso favor e a favor das comunidades. Sejamos também nós próprios cada vez mais as comunidades e cada vez menos um movimento político avulso.

Queria só fazer um parentesis

Queria só fazer um parentesis a todos estes comentários, fala-se muito no apoio de moradores mas na verdade o único apoiante da rua onde existe esta escola é o senhor que tem dado a cara para a comunicação social. Como morador na zona há 50 anos não entendo como este senhor fala em nome de outros, com que direito?. Os senhores "okupas" dizem que a decisão é de todos, no entanto este senhor auto nomeou-se representante dos moradores sem qualquer direito. O projecto do colectivo até poderia ser interessante não fosse o abuso da utilização deste escola até altas horas da noite, pois estes senhores não respeitam quem ali mora. Como morador o que peço é um pouco mais de respeito por quem aqui mora. Deixem-nos descansar, deixem-nos em sossego.

a minha avo mora na Fontinha

a minha avo mora na Fontinha e diz o que o senhor escreveu. diz que acha bem que haja um ATL gratis mas esta cansada da confusao e do barulho ate altas horas. como os miudos nao vao a escola a noite aquilo devia fechar antes do jantar. a serio deixem as pessoas sossegadas. por favor

as 7 ou 8 crianças que

as 7 ou 8 crianças que diariamente fazem dali a sua casa, os 7 ou 8 jovens que ocupam os fins de tarde, a velha guarda dona Amélia, e os que de longe a longe aparecem, não são pessoas?

meia duzia de crianças e

meia duzia de crianças e jovens e a dona Amelia? entao voces nao diziam que eram os moradores da Fontinha em peso? LOL! deixem-se de armar em representantes da comunidade, os moradores da fontinha sabem falar, se quiserem

houve barulho, sim: o

houve barulho, sim: o problema foi que a seguir às ameaças da CMP o es.col.a passou a ter uma acampada e gente em permanência, por motivos de segurança (ninguém lá ficava antes disso) o que, de vez em quando, deu barulho. o horário normal do es.col.a, a que se espera que volte logo que seja reocupado, é até à hora de jantar, mais ou menos. de qualquer forma, por minha parte, como integrante do projecto, peço desculpa a todos os que se sentiram incomodados.

Da legalidade das ocupações -

Saibam por que é legítima a ocupação de espaços públicos, como no caso da Escola da Fontinha: http://offxore.blogspot.pt/2012/04/da-legalidade-das-ocupacoes.html

eu, pessoalmente, aplicaria o

eu, pessoalmente, aplicaria o mesmo princípio a toda a comunicação social intitucionalizada. que por trás da máscara das boas intenções nos sujeita constantemente ao seu filtro tendencioso. sou muito mais apologista de se fortalecer e incentivar os meios de comunicação internos aos projectos e ideias, ainda que não tenhamos o mesmo canal nem visibilidade!

a propósito...

um bom relato dos acontecimentos da fontinha a partir de dentro...

blog.stress.fm/2012/04/relatos-da-escola-da-fontinha-porto.html

25 de abril todos ao Porto!
they've got the guns, we got the numbers!!!

Em alguns jornais, a deputada

Em alguns jornais, a deputada Catarina Martins tinha-se recusado a entrar porque os jornalistas não a poderiam acompanhar, mas noutros ela teria sido impedida de entrar porque a malta estava contra - o que é muito, mas mesmo muito, diferente.

Devido a acontecimentos recentes, partilho da mesma opinião. Cansa, esta cena cansa. Mas pelo menos faz-nos abrir os olhos, já que alguns têm feito alguma força para os fechar.

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