[Espanha] “Não há dúvidas que as novas gerações, assim como nós, levam um mundo novo em seus corações”

[Reunimos-nos com Rai Ferrer, autor dos quadrinhos Viento del Pueblo - Centenario de la CNT (1910-2010). O livro, editado pela Fundação de Estudos Libertários Anselmo Lorenzo dentro dos projetos do CeNTenário, apresenta a história do sindicato focando sobre os mais importantes acontecimentos e personagens libertários.]

CNT > Jornalista, especialista em revistas de humor e quadrinhos, diretor artístico da revista Strong, membro fundador do coletivo Onomatopeya... Para aqueles que não te conhecem, faça um breve resumo da tua trajetória artística-profissional.

Rai Ferrer < Nasci em Mancilles (Burgos) em 1942 e estou em Barcelona desde os sete anos. Fui trabalhar na editora Bruguera aos quatorze, e depois de passar por outras empresas editoriais, passei a ser diretor artístico da revista Strong. Anos depois, após o fechamento da revista, ocupei o cargo de redator publicitário em uma empresa de vendas por correio.

Em 1975, com Franco já batendo as botas, fundei com dois companheiros, um desenhista e outro fotógrafo e rotulista, o coletivo Onomatopeya. Publicamos nossos trabalhos (gráficos e literários) em revistas como El Viejo Topo, Diario 16, Fotogramas e Por Favor, a maior parte delas de ideologia libertária.

CNT > É verdade que você esteve a ponto de parar na prisão Modelo por injurias ao exército? Conte para nós sobre este caso.

Ferrer < Aconteceu que por causa de uma página da série “Tempo de Estampas”, publicada em Por Favor após a morte do ditador, os militares de Melilla e Catalunha nos denunciaram e apesar do processo ter finalmente terminado, o coletivo acabou se dissolvendo. Foi então quando, apoiado pelos amigos, decidi continuar com o Onomatopeya sozinho e publiquei os livros A Novela de Aventuras, A Novela Policial, Durruti e 100 Espanhóis da Razão e da Espada, que agora assino como Rai Ferrer.

CNT > Para esta ocasião você conta com a participação do também desenhista Carlos Azagra. Vocês já tinham trabalhados juntos em ocasiões anteriores? Que aspirações você tem com este novo trabalho editorial?

Ferrer < Sim, é verdade, Carlos e eu além de colegas e amigos, trabalhamos durante vários anos na revista El Papus e no Pequeño Pravda Deportivo, cujo amigo Ivá dirigia, publicando em todas as segundas-feiras no Periódico de Catalunya. Minha maior aspiração é a de que o livro, assim como aconteceu com a biografia de Durruti, se converta no “livro escolar” das novas gerações.

CNT > A obra faz uma visão geral desde a fundação da CNT até a nascente e nada inocente democracia. Com qual etapa das relatadas em teu livro você ficaria?

Ferrer < Bom, não há dúvidas que ficaria com os seis primeiros meses da guerra civil, nos quais a CNT converteu a Espanha (e particularmente a Catalunha) no único lugar do mundo onde a utopia anarquista se fez realidade. Autogestão, coletivizações, ocupação de terras, etc., etc...

CNT > De onde vem teu interesse pelo anarquismo? Você presenciou as jornadas libertárias de 77 no Parc Güell em Barcelona? O que você destacaria daquele renascer da CNT às portas da transição democrática?

Ferrer < Meu interesse pelo anarquismo surge de meu amor à liberdade, e tem como origem na minha própria mãe que, sendo modista em Barcelona durante a guerra civil, assistiu o enterro de Buenaventura Durruti. Com relação às jornadas libertárias, para as pessoas da minha geração foi uma festa solidária, considerada como o relançamento do movimento obreiro anarcosindicalista que o poder político da transição à democracia pretendia silenciar e anular.

CNT > Antonio Machado, Buenaventura Durruti, Pablo Iglesias, La Pasionaria, Blas Infante... são algumas das pessoas sobre as quais você escreveu e desenhou. Com qual delas você se sente mais identificado?

Ferrer < Identifico-me mais com militantes libertários como Durruti e Ascaso, poetas como Machado, León Felipe e Miguel Hernández e escritores como Baroja e Valle Inclán. À lista de personagens ilustres, cabe acrescentar a recente criação de uma obra sobre Francisco Ferrer i Guardia. É verdade? Sim, é verdade. Já está na gráfica as “aleluias” de Ferrer i Guardia e a Escola Moderna, que Antonina Rodrigo e eu realizamos.

CNT > No passado 26 de janeiro foi realizado a apresentação do CeNTenário em Barcelona. Qual é a avaliação do conjunto de atos preparados para a ocasião?

Ferrer < Creio que a comissão encarregada do Centenário está fazendo um trabalho esplêndido, e me enche de orgulho fazer parte de algum dos conteúdos programados.

CNT > Que futuro você vê para as idéias libertárias e anarcosindicalistas para este século XXI?

Ferrer < Talvez possa ser lento, mas não há dúvidas que as novas gerações, assim como nós, levam “um mundo novo em nossos corações”. E embora o poder político e econômico tente o estrangular, surgirá para melhorar este mundo, agora tão silenciado, no qual nos movemos.

CNT > Sabemos que por causa da edição do livro você teve a oportunidade de visitar em Madri as novas instalações (ainda em obras) e a extensa documentação existente na FAL. Que impressão você teve de tal projeto?

Ferrer < A melhor impressão. Além do extraordinário arquivo dos acervos do movimento anarquista em toda sua história, disporá de espaços para debate, salas de exposições, biblioteca pública e lugar de encontro para as velhas e novas gerações. Há muito que fazer, mas como disse o poeta “o caminho é feito ao andar”.

Viento del Pueblo - Centenario de la CNT (1910-2010)

Rai Ferrer (Onomatopeya)

Fundación Anselmo Lorenzo, 2010189

páginas, 24x17 cms.ISBN: 978-84-86864-76-

15 euros.

Fonte: Jornal CNT – março de 2010.

Tradução > Marcelo Yokoi

agência de notícias anarquistas-ana

antes do meu cochilo
não estavas aí
nuvem de verão

João Angelo Salvadori

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